Destaque

Capítulo 4

I

Hian sentiu o abraço do padre. Ainda mirava a porta e respirava poeira. Tentou afastá-lo com um empurrão, mas as mãos atravessaram-o no peito.

O padre afastou-se um passo.

– Espere por mim, não faça nada idiota, por favor.

Hian tentou tocá-lo mais uma vez, mas percebeu-se disforme. Sua silhueta alongava-se para dentro da porta. Numa fração de segundo, havia entrado. A consciência percebeu um altar e em cima deste uma luz e era para lá que o corpo escoava.

Formou-se de novo sentado numa cadeira de balanço na varanda de uma casa de campo. Não havia ninguém, só o pasto se alongando horizonte afora sob o céu alaranjado no final da tarde. Para não dizer que estava completamente sozinho, um cachorro soltou um latido grave em sua direção antes de voltar a morder algo que parecia o pneu de um trator.

Hian olhou as mãos. Fechou e abriu os dedos. À sua direta uma porta gemeu preguiçosamente. Uma jovem mulher de cabelos nos ombros e olhar triste atravessou o portal e ficou a olhá-lo. Carregava um copo com água na frente dos seios. Hian notou-se incrivelmente sedento, de tal forma que estendeu a mão em direção ao copo. Ela o entregou e esperou até que ele tivesse terminado.

– O que é isto? – Hian perguntou devolvendo o copo.

– Outra dimensão.

Ela fez a porta gemer mais uma vez e entrou na casa.

Sozinho de novo, notou que o dia estava quente, tinha a camisa molhada de suor.

Tirou do bolso da calça a carteira de cigarros e acendeu um. Não ventava. As folhas das árvores contorcidas no pasto não se mexiam. Tudo parecia estático, só o cachorro chacoalhava o pneu na mandíbula. Encarou a porta imaginando o que encontraria do outro lado. Deu uma tragada no cigarro, mas o calor fazia seus pulmões arderem. Tossiu e tentou mais uma vez. Fez careta ao puxar a fumaça e a soltou com alívio.

– Até agora não chegou? – sussurrou olhando a brasa desintegrar o cigarro.

Enxugou a testa com as mãos. Levantou-se, desceu os três degraus para fora e jogou o cigarro na terra. Hian notou que no céu, um pouco acima das árvores, brilhava não um sol, mas dois.

– Que porra é essa?

O cachorro rosnou e avançou em sua direção. Hian correu para a porta e tentou abri-la. Girava a maçaneta e empurrava a porta, mas ela não cedia. Escutou o cachorro se aproximando. Suas garras riscavam a terra seca.

– Socorro!

– Hana! – Gritou o padre ao lado de Hian.

A cachorra derrapou levantando poeira. Tropeçou a caiu de lado nos degraus. Levantou-se de cabeça baixa, pareceu demorar um segundo para mudar de postura até que tirou a língua para fora e abanando o rabo foi fazer festinha nas pernas do padre.

Hian tinha a mão no peito e o rosto deformado.

– Hana? – o padre concordou acariciando-a na cabeça – Como assim? De onde você…? Isso é real?

O padre estendeu a mão pedindo calma.

– Vamos entrar, meu Deus que calor e que sede.

– Está tranca… – o padre puxou a porta abrindo-a. Deu passagem a Hian e depois entrou.

A mulher de olhos triste estava esperando de pé no centro da sala com um copo de água. O padre aceitou com um sorriso. Depois de beber, devolveu o copo e agradeceu. A mulher atravessou uma cortina de conchinhas que farfalharam como um chocalho e saiu do cômodo. Uma garotinha magricela abraçada aos próprios joelhos assistia à televisão sentada no chão sobre um tapete de chochê. Hian nunca havia assistido àquele desenho.

O padre apontou uma poltrona à Hian, que sentou-se sem reclamar. A televisão parecia estar no mudo e a garotinha, bem perto, não tirava os olhos do desenho. O padre ficou um tempo a observá-la. Quando a mulher voltou à sala, carregava uma chaleira.

– Já, já, Paulo – disse antes de se enfiar num corredor tão escuro que Hian nem notara que estava ali, ao lado da cortina de conchinhas.

Um gemido assustador chegou-lhe daquele corredor. O coração de Hian estremeu no mesmo instante. Sabia muito bem quem era aquela mulher em agonia. Cobriu os olhos com as mãos e sentiu que o padre o afagava no ombro.

– A Hana quase te pegou, não foi? – Escutou a voz rouca da garotinha. Ela falava sem olhá-lo – Se não fosse o Paulo, ela ia tirar um pedação da sua coxa. Eu já vi ela fazer isso. Você é burro.

– Shhh… – fez o padre a Hian.

– Shhh?

– É só uma criança.

– Seu rabo que sou só uma criança! – Berrou a garotinha.

– Hazel! – Ela estalou a língua em deboche e voltou ao desenho.

– E diziam que eu era insolente… – sussurrou Hian.

A mulher voltou de mãos vazias.

– Eu disse que vocês haviam chegado. Ela me pediu para informá-los…o motivo do chamado.

– O garoto estava surtando, ela precisava trazê-lo aqui, eu já havia dito um milhão de vezes.

– Não é sobre isso – ela apontou para duas mochilas num canto, ao lado da televisão – Hazel e eu vamos embora, esse é o desejo dela.

– Mas vocês não podem ficar lá.

– Não ficaremos. Vamos para o norte e vamos voltar de lá – o padre concordou.

– É um bom plano…de fato é um bom plano, eu já havia dito a ela que ficar aqui era uma sentença de morte.

A mulher desviou o olhar.

– Tínhamos esperança.

– Eu sei… – disse o padre aproximando-se da jovem mulher – ela vai, pelo menos, deixar que a vejamos, não é? Ela não vai fazer isso com o Hian – o padre apontou para ele, que tentava acompanhar o que diziam, mas nada parecia fazer sentido.

– Você sabe como ela é. Não queria, mas eu insisti.

– E como ela está? – ela se afastou dele. Colocou-se de lado para a cortina com conchinhas e começou a brincar com uma delas.

– Temos que ir rápido – ela levantou os ombros – pode ser a qualquer momento.

– Ela fede – disse Hazel. Hian a encarou furioso.

– Os nódulos estouraram e o pus derramou nos lençois. O cheiro ficou quase insuportável.

– O-o que aconteceu? – Hian perguntou com os olhos cheios de lágrimas – o que está acontecendo?

– Ah, não acredito que ele vai chorar. Depois eu que sou a criancinha – Hian avançou contra ela, caiu por cima e tentou esbofeteá-la, mas ela era mais forte do que ele havia imaginado, de modo que foi agarrado pelos punhos tendo os joelhos ponteagudos dela contra a barriga tirando-lhe o fôlego. Sentiu um calor estranho onde ela o tocava.

– Hazel, não! – gritou o padre agarrando Hian pela cintura e jogando-o novamente na poltrona – Que droga, parem com isso. Vocês são irmãos!

– O quê? – Hian berrou.

– Babaca, eu poderia ter te matado…

– Irmãos? – Hian perguntou incrédulo – então como ela tem coragem de falar da mãe desse jeito?

– Ela fede, seu desgraçado. Não estou falando nenhuma mentira. Ela fede sim, seu burro.

Hian tentou chutá-la, ela se desviou. Hian não acreditou nos olhos quando viu que a mão de Hazel havia pegado fogo instantaneamente.

– Você quer torrar? Quer?

– Não! – A jovem mulher gritou. A mão de Hazel se apagou. Um cheiro estranho de cinzas tomou conta do lugar.

Hazel levantou-se e correu para fora da casa.

– Graças a Deus… – disse o padre ofegante.

II

Na cozinha, ao redor de uma mesa, o padre tentava acalmar Hian, que sentia-se sufocado pelo calor. Primeiro ele havia tentado disparar para o quarto da mãe, depois gritara por respostas até que, exausto, havia se sentado no chão, de onde fora arrastado através da cortina de conchinhas. A mulher dizia que aquele era o lugar mais arejado da casa. O padre então esforçou-se para colocá-lo sentado sobre uma cadeira e forçaram-o a beber água.

– Por que não me deixam vê-la?

– Eu quero que você a veja. Só que você precisa estar preparado, caso contrário… ela está muito doente, você não pode entrar naquele quarto deste jeito. A verdade é que ainda precisamos dela, então temos que ter cuidado.

– A menina disse que ela fede, você a trata como um objeto e você… – olhou para a mulher – cuida dela, mas nem parece se comover – Hian disse com desgosto.

– Nos acostumamos com a morte – ela respondeu. Estava de braços cruzados e encostada numa bancada.

– Ela vai morrer? Você tem certeza disso? – ela disse que sim – Como pode ter certeza? Onde está o médico? Porque ela não está num hospital?

– Acalme-se – o padre tocou-o no ombro.

– Ela não duraria um dia em um hospital – disse a mulher. Continuou ao ver o brilho de curiosidade nos olhos dele – Estão infestados de pessoas doentes há anos. Todos morrem, não são mais hospitais, são necrotérios. É a peste. Às vezes, quando o clima está mais frio, ela dá trégua, mas no calor, como nesta época do ano, é impossível não se acostumar com a morte.

– Peste?

– Sim. É por isso que ela se refugiou em nosso mundo – disse o padre.

Hian secou as mãos na calça e deu um gole na água.

– E porque voltou?

Hazel entrou na cozinha. Havia conseguido pegar a última frase e como se estivesse escutanto a conversa há algum tempo, disse:

– É, por que ela voltou? – Hian a encarou assustado. Ela fingiu não ver o olhar.

Hazel pegou um copo, foi até a geladeira e o enchou com leite. Segurava-o por baixo e de alguma forma fazia com que o leite soprasse fumaça. Quando satisfeita, colocou chocolate em pó e depois mexeu a mistura com o dedo, chupando-o depois para limpá-lo. Todos a observavam.

O padre limpou a garganta antes de responder:

– Não era o lugar dela, não queria ficar lá – levantou os ombros – eu até tentei segurá-la, mas foi impossível. Sua mãe é especial, ela faz parte de um grupo muito raro de pessoas que conseguem usar os portais. É por isso que disse que ainda precisamos dela. E é por isso que nunca fez sentido te dizer onde ela estava.

– É por isso que precisamos nos apressar. Se ela morrer, vocês estão presos aqui e nós também.

– Dê mais um pouco de tempo para ele, por favor.

Hian encarou Hazel. Ela bebia o chocolate ao leite e tamborilava os dedos na coxa magricela.

– Se ela sempre pôde me trazer até aqui, porque me deixou sozinho?

– Você queria vir pra cá? – Hazel disse com um sorriso sarcástico.

– A peste. Agora mesmo estamos correndo enorme risco. Não só de nos infectarmos, mas também de levarmos a morte para nossa cidade.

– Mesmo assim… – Hian chacoalhou a cabeça. Olhou o padre sentado do outro lado da mesa, a mulher escorada com a feição séria e Hazel brincando com o chocolate – mesmo assim não faz sentido. Porque ela me deixou para viver aqui? Ela já havia saído deste lugar, porque voltar e ainda por cima me abandonar? Ela só queria me deixar? É isso? Porque não deixou ela também? – apontou para Hazel.

– Hazel não pode viver no nosso mundo. Você viu o que ela pode fazer. Existem pessoas que controlam esse tipo de coisa lá.

– Ei, você – Hian a chamou. Ela levantou os olhos desafiadores para ele – como você faz isso? – Hazel levantou os ombros.

– É filha de dois mundos. – Respondeu a mulher – mãe daqui e o pai de lá. A existência dela não obedece às regras, nem o seu corpo…

– E nem ela… – disse o padre sorrindo. Hazel sorriu como se estivesse satisfeita pelo comentário – o fato é que Hazel será caçada no nosso mundo. Aqui eles não conseguem localizá-la. Lá isso é possível. Por isso que elas vão entrar na nossa dimensão passageiramente. Vamos sair pelo nosso portal, arrumar as malas e viajar para o norte, onde encontraremos outro portal que as colocará de volta nesse mundo numa outra cidade, num outro país, livre desta peste.

– Precisamos sair daqui antes que ela se vá…

– Você está pronto? – perguntou o padre.

Por um segundo, Hian notou um ar de constrangimento em Hazel, que logo se dissipou. Manteve-se ereta e altiva como sempre.

Independente de quanto tempo passasse, não poderia estar pronto para o que estava por vir, de tal forma que sem dizer uma palavra, colocou-se de pé. Atravessaram a cortina de conchinhas e viraram no corredor escuro. Ali já era notável o cheiro de morte do qual Hazel falava com tanto ódio. Tentavam disfarçá-lo com álcool e desinfetantes, mas não conseguiam. Os aromas não se misturavam. O cheiro de carne podre, pus e infecção era evidente.

Diante da porta do quarto, Hian travou. Havia estado determinado, mas agora as mãos tremiam. O padre o incentivava a girar a maçaneta, mas sentia-se aterrorizado pela expectativa do que encontraria ali dentro.

Elisa, dentro do quarto, gemia cada vez mais alto palavras que Hian não conseguia distinguir. Era como se ela tivesse notado a hesitação de Hian e o chamasse para dentro de uma vez por todas. O padre tomou a frente, abriu a porta e entrou. Hian cruzou a soleira mirando os próprios pés. Tinha vontade de se colocar atrás do padre e, num primeiro momento, observar tudo dali. Mas consciente dessa vontade e da covardia que ela representava, forçou-se à bravura de colocar-se no centro do cômodo e levantar a cabeça.

Estavam na penumbra. As janelas estavam fechadas e as cortinas cerradas. Na cama encostada na parede, Elisa estava deitada, tinha os olhos abertos e atentos sobre ele. Estava coberta por uma escura manta, de modo que qualquer macha de pus ou sangue passava despercebida. Só a cabeça da mulher estava de fora. Ela tinha olhos vermelhos e inchados, a testa e o couro cabeludo molhados de suor e os lábios rachados com coágulos de sangue se formando ao redor da boca. A pele não tinha cor alguma.

– Eu estava te escutando. – ela disse baixinho, Hian teve que se aproximar.

O terror da cena havia passado. A morte ali era clara, mas nem de longe estava tão feia quanto havia imaginado. Agora sentia-se somente confuso. O que dizer à mãe que não via há onze anos? Ainda mais neste momento, em que todos estavam conformados que nas próximas horas ela estaria morta. Ao pensar sobre isso, ficou indignado. Ele não estava conformado, porque só agora ele a reencontrou? E ainda por cima daquele jeito, não era justo.

– Porque não ficou lá, comigo? – ele perguntou. Estava perto da cama, mas de pé, olhando de cima para baixo, com a feição séria e os lábios apertados.

– Hazel – Elisa respondeu com esforço.

– Eu também sou seu filho.

– Vo-cê te… – soltou uma tosse fraca e puxou o ar para os pulmões com os olhos arregalados. Hian assustou-se, nunca havia visto a morte, então imaginou-se diante dela naquele momento. Ficou aliviado quanto ela recobrou a postura – teve uma vida melhor do que ela.

– Largado para trás, sozinho? Essa é a vida melhor? – ela acenou que sim – você nem sabe como foi minha vida, não estava lá – a mulher esboçou um sorriso.

– Todos os meus filhos…fogo nas veias.

– É o seu sangue. – Disse o padre aproximando-se com um sorriso. O bom humor dele naquela situação incomodou Hian, que ajoelhou-se ao lado da mulher e impaciente, disse:

– A filha que você escolheu, vai te deixar sozinha para morrer. Eu não vou embora, vou ficar aqui. Vamos procurar um médico, trazer ele aqui, ainda deve existir um jeito. Você nem está tão ruim. – Tentou sorrir ao dizer a última frase.

Elisa acenou que não.

– Isso está fora de cogitação, Hian – o padre disse tentando tocá-lo, mas foi interceptado por um tapa.

– Eu não vou te abandonar! – ele gritou. Elisa ficou agitada na cama.

– Pelo amor de Deus, não incomode sua mãe desse jeito.

O padre levantou-o pelo braço e afastou-o da cama. A mulher tirou o braço para fora da manta gesticulando para que parassem. Hian ficou chocado com a visão daquele braço. As veias estavam todas estouradas e úlceras adentravam a carne podre. As unhas estavam amareladas, finas e caindo dos dedos. Era um braço morto e fedia como tal.

Ao encará-la, Hian percebeu que os olhos pulsavam e perdiam a cor. Ela se esforçava para falar alguma coisa. O padre também percebeu, de modo que os dois se jogaram de joelhos ao lado dela.

Com esforço, ela dobrou o braço até que a ponta dos dedos encostassem no pescoço do filho. Hian ficou emocionado com aquele toque.

– Hazel…agora só tem você, por favor… – seus olhos miraram o padre depois de dizer isso e ficaram paralisados.

– Mãe? – Hian tentou chamá-la, mas ela parecia não escutar.

O padre levantou num pulo e agarrou Hian pelo braço.

– Precisamos ir, é o último suspiro dela. Está fazendo de tudo para se manter viva.

O padre arrastou Hian para fora do quarto, que andava olhando para trás vendo o peito da mãe inflar e murchar rapidamente. Sim, era isso mesmo, ela já estava morta, mas se agarrava aos últimos segundos de vida para tirá-los de lá.

-N-não – Hian disse choroso antes de atravessar a porta e sair no corredor escuro.

Na sala, as duas já estavam com as malas em mãos. O padre colocou Hazel de baixo de seus braços. A mulher de olhos tristes, constragida, abraçou um Hian completamente transtornado. Alheio à realidade que o cercava.

– Elisa! – gritou o padre.

– Tchau, mãe! – gritou Hazel ao notar que seu corpo desintegrava.

Capítulo 3

Destaque

I

Antes de ir ao colégio, Maria entrou no quarto de Hian. Escancarou a porta com um tapa e ficou aflita ao ver que ele não estava. Na soleira investigou o cenário, viu os cacos de vidro no chão, a blusa de uniforme sobre o encosto da cadeira e o celular em cima da mesa.

Havia passado a madrugada inteira em claro, era sempre assim quando brigava com Hian. Ele era tão instável, sempre dizia que largaria tudo e iria embora sem rumo para procurar notícias da mãe. Maria vivia com medo de que em um dos seus muitos ataques de nervos, fosse embora e a largasse para trás.

Ali, parada na soleira, vendo aquele cenário, era claro que algo estava errado. Maria, de repende, sentiu-se estranha. Foi tomada por uma agonia profunda que só seria curada quando o encontrasse.

Desceu correndo os degraus da escada e foi até a casa do padre. A porta estava entreaberta, empurrou-a devagar.  O lugar estava tão vazio e estranho quanto o quarto de Hian. Na cozinha as panelas estavam no fogão abertas e jogadas de qualquer jeito. No quarto do Padre a cama estava intocada e o banheiro sem uma gota de umidade. O silêncio da igreja como um todo a incomodou de tal forma que sentiu vontade de chorar.

Lembrou-se da porta misteriosa, objeto de fixação de Hian, e sem saber exatamente o motivo, ficou cismada de que deveria vê-la. Atravessou o salão da igreja, foi aos fundos e desceu até o subsolo. Odiava aquele lugar. Uma vez Hian a levara ali, havia se sentido tão enjoada que não conseguira dar dois passos adiante. Mesmo que notasse em si a mesma agonia de antes, estava determinada a enfrentar aquele ambiente sujo, claustrofóbico e o pavor das aranhas que corriam pelos cantos. Correu até o final do corredor, percebeu-se ofegante, não por causa da corrida, mas sim por causa do medo que já estava sentindo desde que vira os cacos de vidro. Pensamentos ruins e premonições catastróficas brotaram em sua mente.

A porta estava lá, trancada e imutável, mas na parede oposta a ela, Maria notou duas estranhas manchas, como se a parede tivesse sido queimada. Ficou a analisar aquela silhueta e conhecendo bem as formas do namorado e as posições com que parava o corpo, numa fração de segundo teve a certeza de que uma daquelas imagens era Hian. Colocou a palma da mão sobre a mancha.

– Hian – sussurrou.

Olhou para porta.

– Vou precisar de ajuda – disse antes de sair dali.

Maria correu até o colégio. Ainda estava cedo, haviam acabado de abrir os portões, de modo que ela se colocou a esperar sozinha no pátio. Dois minutos depois, Oscar entrava. Ele a olhou com espanto.

– Vem comigo! – Maria disse pegando-o pelo punho. Ele arrancou o braço das mãos dela.

– Ei, o que é isso? Temos aula, o que aconteceu?

– Dane-se a aula. O Hian sumiu e tem uma mancha esquisita naquela porta. A gente precisa abrir ela.

– Que porta? E cadê sua mochila? – Maria tateou os ombros.

– Não sei, acho que está na igreja, tanto faz – ela suspirou – a porta que ele vive comentando, a da igreja, que está sempre trancada no subsolo – Oscar acenou, dizendo que havia se lembrado da tal porta – Hian sumiu e o padre também. Eu não sei o porquê, mas acho que aquela porta tem alguma coisa a ver com isso. A gente precisa arrombar ela, achar a chave, sei lá, fazer alguma coisa.

– Ele ficou comigo ontem até umas meia noite, eu acho. Pra você considerar uma pessoa desaparecida, tem que passar no mínimo quarenta e oito horas. Não se passou nem um dia. Ele vai aparecer, relaxa – Maria apertou-lhe no braço – Ai, o que é isso, está doida?

– Você vai comigo até a igreja, nem que eu tenha que te arrastar até lá, está me escutando? – disse furiosa. Para a sua surpresa, Oscar desviou o olhar, mirou algum ponto no portão. Ela olhou para trás e viu que Luiza se aproximava distraída. Mesmo que estivesse calor aquele dia, ela colocava uma blusa de frio. Maria reparou que ela tinha marcas nos braços, manchas vermelhas e roxas, eram machucados e estavam bem recentes. Um pouco chocada, afrouxou os dedos do braço de Oscar.

– Você viu? – ele sussurrou. Maria acenou que sim.

Luiza alcançou a dupla e acendeu um cigarro.

– Quero conversar com você – ela disse a Oscar.

– Agora não dá! – disse Maria.

Oscar deu um passo à frente – Dá sim!

– Hian está sumido – disse Maria espalmando as mãos, mostrando-se incrédula diante do desinteresse do amigo – será que você não entendeu a gravidade da situação? – Oscar balançou a cabeça.

– Eu já disse, ele ainda não pode ser considerado desaparecido. Você está muito apavorada. Vamos assistir à aula e depois vou à igreja com você. Que tal? – disse se afastando com Luiza.

– Não – gritou para que ele pudesse ouvir, uma vez que já estava distante – Não vou ficar aqui esperando. Se você não está nem aí, eu estou… – saiu do pátio e tomou o rumo de casa.

Correu para casa, o vento fazia com que seus cabelos subissem, driblava os pedestres, desviava-se dos cachorros e das bicicletas, reparava que os velhinhos nas portas das casas riam do seu desespero, passou pela cerca de casa, foi até os fundos e chutou a porta onde o pai guardava as ferragens. Antes de começar a procurar, teve que recuperar o fôlego. Sentia-se tonta, agarrou a maçaneta com medo de cair.

Depois que se recuperou revirou a caixa de ferragens buscando um pé de cabra. Já tinha visto o pai com um, não se lembrava exatamente de como era o formato, mas tinha certeza que o identificaria quando o visse. Também não fazia ideia de como usar, mas daria um jeito quando a hora chegasse. Desleixadamente, enfiava a mão na caixa. Uma navalha abriu um corte em seu dedo indicador, Maria gemeu de dor e levou a ferida à boca.

– Ai, que droga – sussurrou.

– Que foi? – Marcos perguntou. Aproximava-se pelas suas costas.

Maria odiava abrir o jogo sobre qualquer coisa com os irmãos, principalmente com aquele, então o ignorou.

Marcos a segurou pelo punho – Ei, você tá esquisita. Que foi, não tinha que tá no colégio?

– Me solta – tentou se livrar – que saco, já disse pra me soltar.

– Só se me responder o que você quer. Tá igual um louco mexendo nesses ferros aí e acha que vou virar as costas e ir embora?

– Quero o pé de cabra, cadê? – forçou o braço para baixo subitamente conseguindo se livrar. Marcos ficou a olhá-la, parecia desconfiado. Girou a cabeça para um lado e depois para o outro. Ainda em silêncio apontou para um longo ferro retorcido pendurado na parede por um prego. Maria avançou, o agarrou e tentou sair, mas foi cercada – Sai da minha frente.

– Olha como fala comigo. Quer isso pra quê? Responde logo ou grito o pai.

– N-não, por favor – disse apavorada – O Hian sumiu, acho que está trancado. Preciso arrombar uma porta.

– Sumiu? – perguntou com os olhos arregalados.

– Sim…por quê? – Maria não soube o motivo de ter perguntado, alguma coisa no olhar do irmão assustou-a de uma forma que a pergunta se fez naturalmente. Chegou até a se arrepender, sentindo que havia prolongado aquela conversa agoniante.

– Nada – disse abrindo os braços – trancado atrás de uma porta…acho que não. Deve ter ido embora. Melhor assim.

– Cala a boca – tentou controlar um berro – me deixa passar, pelo amor de Deus, anda logo.

– Não vou te deixar arrombar uma porta na igreja, Maria. Tá ficando louca? Coloca essa droga aí dentro logo e vai pro colégio antes que eu chame o pai – disse com a feição deformada. Molhava os lábios.

Quando Maria percebeu o que havia feito, já tinha chutado Marcos entre as pernas, ele se ajoelhava no chão e segurava os testículos. Ainda tentou agarrá-la, mas ela se esquivou para um lado e passou voando pelo jardim. Nina observava a cena deitada, com as duas orelhas ponteagudas em pé.

Todo o fôlego havia acabado na corrida para casa. Voltando à igreja corria meia quadra e andava exaurida a outra metade. Tentava de novo, corria meia quadra, andava o restante bufando. Foi assim até chegar. Com as vistas turvas e de língua para fora, sentindo o pulmão na garganta, empurrou a porta que dava ao salão. Com dificuldade, avistou do outro lado, em cima do altar, três figuras: uma garotinha, uma jovem, o padre Paulo e Hian.

Notou que a agonia sumia, mas no seu lugar veio-lhe o ódio. Estava curvada com as mãos sobre os joelhos, havia soltado o pé de cabra no chão e só respirava. O estrondo da porta se abrindo havia chamado atenção, de modo que todos a olhavam.

Hian descia do altar e caminhava rapidamente em sua direção. Ao vê-lo mais de perto, ela percebeu que ele estava pálido e com uma expressão que nunca antes vira.

– O que é isso? – sussurrou.

Ao encontrá-la, Hian se manteve ereto demonstrando uma indiferença arrasadora.

– T-tentei te ligar a madrugada inteira, fui até o seu quarto e você não estava, tem um copo quebrado lá e tem uma mancha sua na frente daquela porta, não adianta falar que foi para o colégio, seu uniforme está no quarto, o Oscar também não tinha notícias de você e porque foi tão grosso comigo ontem? O que está acontecendo? – disse se endireitando. Ainda tinha mais coisas que queria jogar para fora, mas vendo aquele olhar desinteressado, ficou paralizada.

– Desculpa, não é uma boa hora, não posso conversar agora.

– Como assim?

– Não posso explicar, você…precisa voltar pro colégio, acho que ainda dá tempo ou…sei lá, ir pra casa.

– Hian, pelo amor de Deus! Sei lá? Ir pra casa? O que está acontecendo com você, conversa comigo! – ela notou que o padre havia descido do altar e andava em sua direção – padre, por favor, onde vocês estavam? – berrou, mas logo sentiu o corpo gelar notando a mesma expressão fria nos olhos dele – gente, por favor, o que está acontecendo? – disse com a voz já inaudível.

– Maria… – disse o padre de forma solene – não podemos te receber agora. Você precisa ir.

– Tem certeza disso? – ela perguntou a Hian, que acenou dizendo que sim – que droga, você é um desgraçado. Não me procure nunca mais – disse com as mãos trêmulas e um sorriso incrédulo.

Antes de se virar mirou as outras duas figuras no altar. Uma era um pouco mais velha do que uma criança. A outra era mais velha, com os cabelos acima dos ombros e olhos tristes, de uma melancolia raramente vista.

Maria virou-se e deixou a igreja largando o pé de cabra para trás. 

Capítulo 2

Destaque

I

Hian acabou adormecendo. Acordou com o barulho de um espirro. Ainda de olhos fechados, tateou a cama tentando achar Maria, mas não a encontrou. Abriu os olhos e viu-a de pé no centro do quarto. A ponta do nariz estava vermelha, ela lutava contra aquela conhecida alergia. Estava sem blusa, com o sutiã à mostra e dobrando o uniforme. Ao vê-lo de olhos abertos, tentou saudá-lo com um sorriso, mas todos os músculos do seu rosto se contorceram mostrando que havia perdido a batalha, espirrou de novo.

– Ai, que droga…odeio seu quarto, quanta poeira – disse com uma voz entupida enquanto usava a mão para secar o nariz – não sei como consegue viver aqui dentro.

Ela terminou de dobrar a blusa e guardou-a na mochila. Hian a admirava em silêncio. Vendo-a daquele jeito, começou a desejá-la fortemente. Adorava o seu corpo esguio e os seios pequenos. Além disso, quando vestida raramente era notável que tinha as coxas e as nádegas mais ricas do que se poderia imaginar. Ele a viu curvada sobre a mochila, de costas para ele, esticou os braços mentais tentando abrir o fecho do sutiã, já conseguia imaginar os seus seios e os tocava com as mãos imaginárias. Nesse devaneio colocou um sorriso bobo no rosto. Ele nem notou quando Maria se levantou e ficou a olhá-lo espantada com o quanto ele estava aéreo, perdido em pensamentos libidinosos.

– Vem cá – pediu imediatamente depois de voltar à realidade – vem? – esticou os braços.

– Estou atrasada – disse com um sorriso malicioso nos lábios.

– Só um pouquinho – tinha a voz manhosa. Ela espirrou mais uma vez.

– Nem se eu quisesse. Aqui no seu quarto é impossível pra mim, amor.

– Claro que não, já fizemos antes. Quando a gente começa, você se distrai e a alergia passa – ela colocou a mão na cintura e ficou a encará-lo, como quem pensa sobre uma proposta. Correu em sua direção e pulou sobre ele. A cama chacoalhou e as molas rangeram. Hian tentou abraçá-la, mas ela o segurou pelos punhos e prendeu os seus braços acima da cabeça, nessa posição deu-lhe um beijo demorado que só aumentou o seu desejo. Ela descolou os lábios dos dele, mas ficou bem perto por mais alguns segundos, de modo que respiravam o mesmo ar. Ela mostrava um sorriso lascivo nos lábios.

– Estou atrasada – disse ainda em cima dele, mas afastando o rosto.

– Atrasada pra o quê?

– Marquei de estudar com a Clarisse quatro horas – ela soltou os punhos e se curvou sobre ele mais uma vez para beijá-lo no pescoço – você também tem que estudar, tem uma lista enorme de exercícios para fazer – cada palavra se encaixava no espaço entre os beijos que dava e recebia. Com as mãos livres, Hian a acariciava nos seios e nas costas. Ele percorreu-a pela espinha até o fecho do sutiã, onde tentou abri-lo. No susto ela se colocou ereta – N-não, amor, estou atrasada… – revirou os olhos mantendo o mesmo sorriso lascivo de antes.

– Atrasada pra estudar? Ninguém se atrasa pra estudar… – Tentou argumentar. Maria desmontou-se dele e abriu o guarda roupas – coloquei suas roupas na segunda gaveta.

– Ah, obrigada – disse docemente, mas se livrando completamente da aura sexual que a dominava há uma fração de segundo. Hian não sabia como ela conseguia fazer isso, se esquecer tão rapidamente do desejo, como se tivesse um botão de liga e desliga – você está melhor? – vestia uma blusinha vermelha justa ao corpo – o négócio da briga com o padre, está bem? – estava distraída enquanto se olhava pelo espelho curvando-se de um lado para o outro. Hian ficou em silêncio, refletiu e descobriu-se livre daquele remorso que o angustiara – Hein?

– Sim, estou. Só precisava de um tempo – viu-a deslizar um batom pelos lábios. Ela gemeu alguma coisa que significava que havia entendido, em seguida foi até a cama e sentou-se com as pernas cruzadas.

– O que vai fazer hoje? – Ele levantou os ombros – Nos vemos mais tarde lá em casa, naquele esqueminha? – Sorriu. Ainda deitado, Hian acenou que sim, ela se curvou e deu-lhe um beijo na testa – estou indo, acho melhor estudar, não quer ser um médico e tirar todos os doentes da igreja? – disse de costas, já saindo.

Hian ficou deitado por meia hora olhando o teto e refletindo sobre o que dissera ao padre. Não sabia exatamente porque tinha a certeza que ele escondia alguma coisa, mas essa certeza sempre existira. Lembrava-se que, quando criança, a feição do padre Paulo ao ser questionado sobre a mãe adquiria uma expressão de farsa e isso era fácil de notar, já que ele costumava ser um homem sincero. Hian questionava, então, os motivos que poderiam levá-lo a mentir. Cogitava a possibilidade de estar sendo protegido de uma decepção, talvez a mãe o abandonara sem qualquer motivo maior, havia saído no mundo em busca de outra vida e o deixara para trás como se não fosse nada. Seria muito doloroso se essa fosse a verdade e assim o padre Paulo poderia ter achado melhor esconder o que sabia.

Às vezes Hian também se deparava com a ideia de que a mãe poderia estar morta e o padre, não querendo destruir as esperanças dele de um dia vir a encontrá-la mais uma vez, esperava o momento certo para dizer que ela já não existia neste mundo. Não gostava de nenhuma dessas duas hipóteses, mas eram as que tinha, caso contrário o padre seria um homem ruim que havia feito alguma maldade à mãe, e isso parecia impossível. Diante dessas reflexões, sempre aparecia em sua mente aquela maldita porta na igreja que nunca se abria e o silêncio do padre sobre o assunto. Lembrava-se que costumava passar horas encarando os desenhos misteriosos daquela porta azul, percorria com as pontas dos dedos a textura moldada no ferro gelado. Alguma coisa ali o atraía. Ficara tão obcecado que o padre passou a trancar o acesso ao subsolo.

– Se ao menos eu soubesse quem eu sou… – Hian sussurrou. Para ele, o mais difícil era não conhecer suas origens, sentia-se como um estrangeiro. A mãe chegara sozinha à cidade para trabalhar na igreja. Hian descobriu que durante os quase dois anos em que ela ficou ali, praticamente não era vista. Muitos não se recordavam do seu rosto, já outros não chegaram nem a conhecê-la. O único contato de Hian com o passado era o Padre Paulo e ele claramente escondia alguma coisa. Enfureceu-se mais uma vez e uma resolução veio-lhe à mente – é a porta, aquela droga de porta, se eu descobrir o que está atrás dela, tenho certeza que descubro tudo – disse ainda olhando para o teto.

Colocou-se de pé energicamente, saiu do quarto, passou pelo salão da igreja e foi até os fundos, onde atravessou o portal que dava para o subsolo, por sorte ele estava aberto. Percorreu por vinte passos um corredor escuro e sujo, era mais úmido que seu quarto e aranhas corriam pelos cantos. Na extremidade do corredor, encarou a misteriosa porta de ferro. Como fazia quando criança, ficou a olhá-la. Tentava decifrar aqueles símbolos misteriosos, dezenas de círculos moldados sem qualquer ordem lógica. Sorriu como a maioria das pessoas fazem diante de uma tarefa impossível. A porta não tinha maçaneta, de modo que Hian tentou forçá-la para trás com as duas mãos, mas, como ele já imaginava, não aconteceu nada.

– Um dia… – disse a si mesmo percebendo a estranha aura que emanava daquele lugar – um dia…

II

Já quase noite, Hian estava escorado no muro do colégio esperando por Oscar, que se escondia atrás de alguma moita por ali e fazia a prova de recuperação de Luíza. Depois de alguns minutos, avistou dois colegas vindo em sua direção, andavam cansados carregando suas mochilas.

– Prova? – Hian perguntou quando eles cruzaram o portão.

– Sim… – um deles disse desanimado.

– Viu o Oscar por aí? – notou o olhar de espanto deles.

– Oscar, de recuperação? Isso é sério?

– N-não, ficou aqui para estudar, deve estar aí dentro, não viram ele em algum lugar? – balançaram a cabeça.

– Acho que não tem mais ninguém aí dentro, cara – disseram enquanto se viravam para ir embora, pareciam apressados. Com o olhar, Hian acompanhou-os rua abaixo.

Olhou para dentro do pátio e soltou um suspiro. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Oscar, mas depois de dez minutos ainda não havia recebido resposta. Já pensando em ir embora, reconheceu Luiza no pátio, ela se sentou sozinha em um dos bancos e acendeu um cigarro. Hian achou aquela uma ótima oportunidade para saber o paradeiro de Oscar e, além disso, fumar acompanhado. Aproximou-se dela com um sorriso estampado na cara, ela, por outro lado, ao vê-lo, fez menção de se levantar, mas, por algum motivo, se conteve como se tivesse perdido o tempo de sair de fininho. Hian a cumprimentou já pedindo emprestado o fogo. Tinha o seu, mas achava essa uma excelente forma de se aproximar de pessoas com quem não tinha tanta intimidade.

– Como foi a prova? – Acendeu seu cigarro, tossiu depois da primeira tragada e soltou um sorriso contido agradecendo silenciosamente porque Maria não estava ali. Mesmo que ele não tivesse malícia na pergunta, ela o olhou desconfiada, de tal forma que Hian decidiu fingir que não sabia de nada sobre os tais planos de cola.

Uma brisa começava a soprar anunciando a chegada da noite. Ao contrário da nitidez da brasa dos cigarros, as feições dos dois jovens estavam turvas na penumbra. Luíza encarava uma árvore distante no pátio transparecendo no rosto algo como receio ou ansiedade. Sem dizer nada, levantou-se e foi embora. Hian ficou imóvel, indignado por ter sido ignorado. Ficou a olhá-la se afastando a passos largos sem dizer uma palavra sequer. Ainda estupefado, sentou-se e se distraíu pensando na estranheza daquela cena, só despertou quando Oscar surgiu em sua frente com um ar de melancolia.

– O que aconteceu? – Hian perguntou sem cerimônias, mas antes que o amigo pudesse começar a falar, continuou – a Luiza acabou de sair daqui estranhíssima – Oscar gemeu alguma coisa, como que para demonstrar que já imaginava que isso pudesse ter acontecido – e você também está com a cara péssima.

– É… – disse com uma expressão de resignação – acho que a Maria estava certa, ela me passou pra trás e ainda por cima ficou com raiva de mim – balançou a cabeça demonstrando toda sua indignação.

– O que você disse pra ela?

– Nada! – Mirou os céus como se pedisse por uma intervenção divina – não tive coragem, mas ela me disse que sairíamos hoje, então achei que pelo menos isso tava garantido, entende? Você também achou, certo? Pois é, mas aparentemente não era bem assim, por isso que te falei, cara, a Maria estava certa, agora vamos embora, que saco, estou muito decepcionado, você entende, não é? – Emendava uma palavra na outra, quando terminou de falar, estava sem fôlego.

– Não, espera… – Hian se sentia confuso, não por causa da reação de Oscar, mas pela estranha atitude de Luíza – ela só disse que não ia cumprir o acordo e pronto? Virou as costas e saiu?

– Mais ou menos… – meneou a cabeça adquirindo um ar de preguiça ou angústia, Hian ainda não tinha certeza – quando ela saiu da sala, nos encontramos e ela me agradeceu, aí eu mencionei o que ela havia falado sobre sairmos ainda hoje, disse até que ela não precisava pagar, que eu pagaria pela minha parte, daí ela começou com desculpinhas esfarrapadas, me disse que hoje não podia, que o pai havia ligado e fazia questão que ela estivesse em casa. Umas besteiras, quem acredita nisso? Ela não vai cumprir, cara, simples assim, eu fui passado pra trás – estava agitado, balançando-se de um lado para o outro.

– Ela disse que não poderia sair ‘hoje’? Especificamente ‘hoje’? – Deu a última tragada no cigarro e jogou-o fora no pátio.

– Sim, ela disse hoje, por causa do pai dela, o que é uma desculpinha, você não acredita nisso, não é? – Oscar gemeu, deu um passo para o lado direito, outro para o lado esquerdo e depois se colocou de frente para Hian mais uma vez – eu disse que ela tinha prometido, fui um pouco agressivo, mas foi sem querer, daí ela achou ruim.

– Um pouco agressivo…quanto? – Estava assustado.

– Ah, na primeira vez eu falei ‘mas você prometeu’, ela argumentou que não podia hoje e que amanhã ou outro dia ela poderia, daí eu a lembrei que ela havia falado especificamente hoje e que isso parecia que ela estava me enganando, ela riu, assim, meio que debochando da minha cara e disse que sairíamos outro dia. Eu falei que não, que deveria ser hoje, era o combinado, entende? – Hian já conseguia imaginar a cena, conhecendo Oscar tudo ficava claro. Balançava a cabeça de um lado para o outro – ela ficou nervosa, gritou que hoje não podia e eu gritei de volta falando que ela não cumpria com a palavra, mas…sendo…

– Um babaca, não é? Ai, meu Deus…e ela?

– Me chamou de retardado e me deixou falando sozinho. Ah, cara… – gemeu – ela estava tão…não sei explicar, amigável no começo da conversa. Quando nos encontramos, ela me abraçou e agradeceu… – Hian escutou um barulho e logo as luminárias do pátio estavam acesas, as luzes iluminaram a face de Oscar revelando olhos vermelhos e inchados.

– Você estava chorando? – Hian disse espantado, Oscar tentou responder de imediato, mas a voz lhe falhou – Cara, você chorou? – Não conseguiu conter o riso, durante quase meio minuto Hian continuou rindo e Oscar aos poucos recuperou-se do estado de perplexidade em que havia entrado.

– Mais ou menos…um pouco, mas foi por causa da raiva, cara. Nós brigamos, ela me xingou e eu a xinguei de volta, foi tenso. Foi uma cena muito pesada e de uma vez. Eu te falei, ela me abraçou e daí segundos depois eu estava gritando com ela – Hian continuava a balançar a cabeça de um lado para o outro.

– Você chorou perto dela? -perguntou segurando uma gargalhada. Oscar olhou para cima mais uma vez e soltou todo o ar que tinha nos pulmões, em seguida encheu-os mais uma vez.

– Um pouco… – Hian engoliu a gargalhada ao ver o sofrimento com que Oscar respondia àquela pergunta – eu me desesperei, fiquei com o negócio da Maria na cabeça e acabei ficando com muito medo dela dar pra trás, daí fiz merda. Eu sei o que você tá pensando, que não era só uma desculpinha…

– E mesmo que fosse…

– Sim, que saco, foi ilógico da minha parte, era melhor pagar pra ver do que…brigar com ela e acabar com tudo – soltou uma risada de sofrimento tirando sarro da própria cara – eu não sei se você sabe, cara, mas é que eu gosto da Luíza já tem alguns anos e quando apareceu essa oportunidade, eu… – Oscar fechou os olhos.

– Acontece. – Sorriu. – Relaxa, conversa com ela, talvez ela ainda tope, mesmo que seja por orgulho, como se precisasse cumprir com a palavra, só não joga isso na cara dela, pelo amor de Deus.

– Ah, não sei, eu chamei ela de um negócio pesado, acho que ela nunca mais vai olhar na minha cara. Que droga, porque as coisas não continuaram bem depois do abraço? – Hian se levantou e tocou-lhe no ombro – Eu fiquei nervoso assim – estalou os dedos – do nada, mas é porque aquilo era tipo uma das melhores coisas que já havia me acontecido e quando ela disse que não podia, eu não sei o que aconteceu comigo… – encarava o chão, o corpo já não estava agitado e falava de modo mais calmo – frustração, cara, acho que nunca tinha lidado com isso, tenho que aprender…

– Hum, lido com isso já tem um tempo e até hoje não aprendi a me controlar, não é tão fácil assim como está imaginando. É o que eu te disse, acontece, cara. Mas repito, se eu fosse você, tentaria conversar com ela mais uma vez, quem sabe? – Oscar o encarou.

– Talvez, preciso pensar. Vai dormir na Maria hoje? – Hian fez que sim com a cabeça – quer ir lá pra casa matar o tempo? Hum, por falar nela…por favor, não fala nada, se ela perguntar conta por cima, mas o negócio do choro, isso não conta nem a pau, tá bom? – Hian o empurrou de leve nas costas para que começassem a andar.

– Ela é minha namorada, cara, tenho que contar – soltou finalmente a gargalhada que havia engolido mais cedo.

III

Os dois amigos ficaram no quarto de Oscar escutando discos de rock até meia noite, hora em que Hian se despediu. Oscar, que havia melhorado, mas ainda conservava um semblante de tristeza, reforçou o pedido para que não dissesse à Maria sobre o choro. Hian havia decidido não contar, mesmo assim tratou o pedido com indiferença, só para deixar ele com a pulga atrás da orelha.

Eram quatro quadras de uma subida exaustiva da casa de oscar até a janela de Maria. As pessoas naquela cidade costumavam dormir cedo, de modo que as casas já tinham todas as luzes desligadas e a rua estava, como sempre, deserta. Tentava andar sorrateiramente, mas havia esquecido o casaco em casa e tremia de frio, o que prejudicava sua concentração. Abraçou o próprio peito e apertou o passo, ansioso para se livrar daquela maldita brisa.

Só caminhou um pouco mais lento quando passou na frente da varanda de uma velhinha. Pelas janelas abertas, Hian conseguia ver as luzes da televisão ligada e ouvia as risadas escandalosas da mulher. Colocou-se nas sombras e passou bem devagar, procurando não despertar a sua curiosidade. Já estava na última quadra antes da janela de Maria. Quando se sentiu seguro, atiçou as pernas mais uma vez.

Avistou a baixa cerca da casa e já se sentiu mais aquecido só com a expectativa de logo mais estar no quarto de Maria e com ela em seus braços. Mirou a casa como um todo, não havia sinal de movimentação, depois olhou o celular para ver se existia algum aviso, a barra parecia limpa. Olhou para o lado esquerdo e depois para o lado direito, nesse ponto, atrás da moita onde na última vez em que estivera ali havia calçado o tênis, viu uma sombra estranha sendo refletida na calçada. Parecia se mover sem se dar conta de que sua projeção podia ser vista. Hian curvou-se um pouco para frente. Curioso, sentia a cabeça trabalhando para desvendar o que poderia ser.

– Que merda é essa…- cochichou.

Numa fração de segundo, imaginou que talvez fosse um cachorro ou um gato. Poderia ser também o reflexo de um dos ramos do arbusto que se movia de um jeito estranho por causa do vento ou um objeto qualquer, como uma sacola ou uma caixa. Aproximou-se da moita, já quase nela viu a sombra tomando forma, o que era um reflexo maciço de bordas vacilantes, gradualmente ganhou pernas e braços ao ponto de se estender até o muro da casa. Aquilo havia sido um homem agachado, e agora ele estava de pé.

Hian deu um passo para trás, mas esbarrou em alguma coisa. Já completamente desnorteado, sentindo o estômago na garganta, olhou de novo a moita, de lá saía Marcos, o irmão mais velho de Maria.

– Shhh… – fez Marcos tendo o dedo indicador na frente da boca – Fica calado, cala a boca, não faz barulho, moleque – sussurrou se aproximando. Atrás de Hian, estava Jorge, o outro irmão, que o agarrou pelo braço e o arrastou até um pouco mais adiante, de modo que não pudessem vê-los de dentro da casa de Maria. Um irmão olhava para o outro e chacoalhava a cabeça concordando com alguma coisa que Hian não poderia saber o que era. Eram grandes e fortes como o pai. O mais velho era notável na cidade por ser uma pessoa destemida, aventureira e perigosa.

– O que você ia fazer? – Marcos perguntou. Hian estava escorado no muro da casa vizinha sendo cercado, de forma bem justa, pelos dois brutamontes – e fala baixo, moleque, senão a gente vai… – Hian ficou em silêncio – ia fazer o quê, moleque?

– E-eu, precisava falar uma coisa com a Maria, ia ver se ela tava acordada.

Jorge não dizia nada, mas não tirava o olhar dele nem por um segundo e tinha sempre a mesma expressão séria como se fosse o segurança do presidente. Marcos sorriu debochando daquela resposta, escorou a mão no muro ao lado da cabeça de Hian.

– E ontem, veio falar um negócio com ela também?

– Ontem? – Marcos molhou os lábios e depois os mordeu, um dos seus trejeitos, costumava fazer isso quando queria se mostrar insatisfeito.

– Você perdeu, Hian, vamo, moleque, abre o jogo. Ia pular pra dentro e ficar de graça com nossa irmã, nas costas do meu pai, fala, não era isso? – falava quase no seu ouvido. Hian tentou pensar no que ia dizer, mas nesse meio tempo sentiu um soco na boca do estômago. Se curvou abrançando o abdômen, as pernas perderam a força, mas ele não cedeu e ficou de pé sentindo brevemente uma vontade de vomitar. Nunca havia apanhado. Para sua surpresa, depois de alguns segundos do choque, doía bem menos do que havia imaginado. De qualquer forma, achou melhor fingir uma dor maior do que a que sentia, talvez sentissem pena dele. Marcos o escorou no muro de novo, agora estava sério – vou perguntar de novo e a cada mentira você vai apanhar. E acredite em mim, você tem sorte, estamos sendo gentis porque você é namorado da nossa irmã, se fosse outro…você tava frito, não tem nem ideia – cerrou os olhos de um modo que Hian acreditou no que ele dizia, mesmo assim não se sentiu um sortudo – o que você ia fazer?

– Eu ia… – parou por um segundo – eu ia pular para dentro e encontrar Maria.

– Muito bem, muito bem – Jorge ainda mantinha aquela mesma cara assustadora com o olhar fixo. Hian não sabia de quem sentia mais medo – e ontem o que você fez?

– Isso…

– Isso, o quê? – disse enfaticamente – quero escutar você dizer, pra depois não falar que fomos injustos.

– Injusto? Como assim? O que vocês vão fazer? – Estava apavorado pela primeira vez até agora. Tentou sair do cerco, mas os dois o puxaram para trás e o encostaram no muro de novo. Ele bateu as costas e arfou – o que vocês vão fazer? Se tentarem me levar daqui, eu vou gritar.

– Se você gritar, eu te mato, moleque – Hian deu os ombros.

– Não vamos te tirar daqui, ainda não, mas vai sofrer algumas consequências, tem que sofrer e não gostamos de ser injustos, então responde a pergunta, por favor. Fala aí, ontem você fez o quê? – Jorge abriu a boca pela primeira vez.

– Sofrer as consequências? Vocês são doidos? Que isso? – tentou romper o cerco mais uma vez, o colocaram de volta com mais força, bateu a cabeça contra o muro e fechou os olhos sentindo-a arder – Tá bom, eu entrei aí e passei a noite com ela.

Hian viu que Marcos tirava de debaixo da camiseta um objeto preto, quase cilindrico e um pouco maior do que um palmo.

– Não podemos deixar marcas em você, pra Maria não saber, então vamos ter que usar isso – disse mostrando a ele um aparelho de choque, acionou um botãozinho na lateral do dispositivo – quando essa luz ficar vermelha, o choque vai ficar pronto, daí vamos te eletrocutar – falava com notável alegria. Já Hian mostrava-se incrédulo que aquilo realmente fosse acontecer – Não queremos que você pise nessa casa de novo, tá entendido? – Hian não escutou a pergunta, ainda estava processando aquele papo das marcas que eles não podiam deixar e o choque como solução.

– A Maria não pode saber? E vocês acham que não vou contar? Se encostarem essa droga em mim, é lógico que eu vou contar.

– Não vai, sabe porquê? – disse Marcos aproximando seu rosto e cerrando os olhos – Se você contar alguma coisa pra ela, vamos contar o que anda fazendo ao pai. Você sabe o que acontece com você e com a Maria se ele descobrir? – abriu os braços – pra falar a verdade, nem eu sei, mas coisa boa não é – o silêncio de Hian revelou a derrota. Ele mirou o aparelho de choque e sentiu medo como há tempos não sentia. Estava como quando uma montanha russa veio à cidade, escutava o próprio coração e a cada batida o sangue se chocava forte contra as pontas dos dedos e o topo da cabeça. Sentia vontade de implorar para que não fizessem aquilo, mas era sim uma pessoa orgulhosa, de modo que convenceu-se de que o choque seria como o soco, mais uma dor decepcionante.

– Você feriu a honra do nosso pai e a nossa, espero que entenda porque está sendo punido – disse Jorge afastando-se um pouco. Claro que Hian já não conseguia escutar nada do que falavam. Marcos disse mais alguma coisa antes que a maldita luz ficasse vermelha, mas todos os sons naquele momento estavam mais baixos do que as batidas do coração.

– Anda logo, então – Acreditava que teria um enfarto se fosse forçado a esperar mais um segundo naquela agonia. Marcos atendeu ao pedido. Puxou sua camiseta para cima e fez com que os ganchos de ferro do aparelho de choque o abraçassem nas costelas. Ficou com o botão pressionado por cinco segundos. O aparelho estalava freneticamente. O corpo de Hian se enrijeceu e por mais que ele sentisse uma vontade tremenda de gritar, só conseguia produzir um débil gemido digno de pena. Dessa vez ele havia conhecido a dor. Quando aquela tortura terminou, subitamente sentiu pavor de que aquilo pudesse acontecer de novo algum dia em sua vida. Tinha a respiração ofegante, já estava de quatro no chão e não disse nada, só queria ser deixado em paz.

– Nunca mais… – Marcos disse a ele antes de partir.

Hian colocou-se de pé, notou que cada um dos seus membros tremiam e tinha os pensamentos todos embaralhados. Só tinha uma vontade incontrolável de chegar em casa, mas tinha dificuldade até de discernir qual era o caminho. Tomou um rumo que lhe pareceu o mais correto naquele momento e seguiu andando como um morimbundo. Para a sua surpresa, rapidamente recobrava a normalidade da consciência e do corpo. Seu celular tocava. Com certeza era Maria, indignada pelo sumiço. Lamentou ter que conversar com ela naquele momento, não fazia ideia de que desculpa daria para furar com o compromisso. Atendeu e ao cumprimentá-la, percebeu que a voz saía trêmula da garganta.

– Que isso, está bem? Cadê você – sussurrava do outro lado da linha.

– Desculpa, não vou poder ir, esto-o-u…passando mal.

– O que você tem? Começou quando? Assim, do nada? Tá falando sério? – Hian sabia que sempre que ela fazia muitas perguntas era porque estava desconfiada de alguma coisa.

– Esto-o-u com…a garganta ruim. Sim, do nada, não está percebendo como minha voz está estranha? Minha garganta ficou péssima de uma hora para a outra, acho que minha imunidade baixou por causa das brigas com o padre – fez-se um silêncio torturante por alguns segundos – Maria?

– Estou pensando sobre isso…muito esquisito, Hian, muito esquisito mesmo – Hian foi pego por uma rajada de vento mais forte, que soprou no microfone do celular e chiou no ouvido de Maria – você está na rua? Claro que está, escutei o vento. Que merda é essa, Hian? O que você está fazendo?

– Eu estava no Oscar, estou voltando pra casa.

– Puta merda, que mentiroso, vem pra cá agora, quero te ver, nem que seja um pouquinho, só pra checar essa garganta sua – Hian gemeu e agora foi sua vez de ficar em silêncio – Hian?

– N-não vou. Não posso, estou doente, preciso ir pra casa…preciso dormir.

– Isso está muito esquisito, eu não acredito em você – Hian estava cansado, de verdade, de modo que resolveu encurtar aquela discussão, resolver tudo no dia seguinte. Mesmo que não estivesse realmente doente, havia levado um soco no estômago e um choque de sei lá quantos volts, portanto era real que precisava descansar.

– Se não acredita, então acho que essa conversa está terminada – disse já se sentindo mal. Maria desligou o telefone sem dizer mais nada. Sabia que seria uma tarefa árdua voltar às boas com ela. Odiou Marcos e Jorge durante todo o percurso de volta para seu quarto na igreja.

IV

Hian subiu os degraus até o quarto com duas ideias fixas em mente. Estava ansioso para encontrar a cama e descansar, por outro lado tinha medo de dormir e nunca mais acordar. Nunca havia levado um choque, logo não sabia ao certo quais reações poderia ter. Também notava uma dor persistente no alto da cabeça, onde a batera contra o muro. E se tivesse uma concussão? Sentia-se fadigado demais para checar a pupila no espelho, ver se tinha algum sintoma estranho e preocupante, de modo que decidiu contar com a sorte. Iria sim se deitar e só podia torcer para acordar inteiro no dia seguinte.

Chegou diante da porta e nem notou que a luz do quarto estava acesa, brilhando pelas frestras nas extremidades. Bateu a mão de qualquer jeito na porta e a jogou para trás, entrou e foi surpreendido ao ver o padre sentado sobre a cama, uma cena rara, talvez única. Ele tinha as mãos fechadas entre os joelhos e não fazia nada, parecia apenas esperar.

– Ah, meu Deus, me dá um tempo… – sussurrou ainda na soleira. O padre se levantou, tinha o ar grave. A atmosfera pesou sobre Hian prenunciando que notícias ruins estavam por vir – Que foi? – Sentiu-se acovardado por aquele sentimento. Não ousava entrar no quarto, queria distância do mensageiro.

– Você está bem? – O padre notava em Hian os efeitos daquela infeliz madrugada. Mantinha, como ele, uma distância conveniente.

– Tive uma noite difícil – disse com uma risada de desdém.

– O que aconteceu? – Hian chacoalhou a cabeça – Mas está bem, certo? Parece tão pálido, brigou com a Maria? Foi isso?

– Para com isso… – disse aborrecido – Por que está aqui?

– Ainda bem que eu esperei mais um pouco, achei que fosse dormir na Maria, mas… – o padre disse a si mesmo – passei o dia todo me perguntando o que fazer – ele encarou a madeira escura da mesinha ao seu lado, olhava cada objeto como se fosse um investigador procurando pistas, mas Hian sabia que ele dificilmente enxergava alguma coisa – sente-se, por favor – Hian negou – por favor, meu jovem, para de ser assim, vamos, sente-se – apontou para a cama – preciso te dizer algo e você não pode ficar aí, parado no pé da porta.

Com o caminhar pesado, Hian atendeu ao pedido. O padre se colocou no centro do quarto, estava frio, mas ele tinha a batina molhada de suor.

– Eu pensei muito na forma como iria te dizer isso e cheguei à conclusão de que devo começar afirmando que eu não sei onde sua mãe está. Mas recebi uma carta dela hoje, ou melhor, de uma jovem que parece estar morando com ela – Hian se colocou de pé num pulo – acalme-se, por favor.

– Uma carta? O que ela dizia? Ela perguntou por mim? – Pulou até o padre, que manteve-se fixo, mas assustado por causa daquele olhar ávido que Hian tinha – Quero ver a carta, cadê? Onde está? – O padre engasgou-se em respostas. Olhava-o freneticamente, procurando em suas mãos e bolsos um pedaço de papel – Onde está?

– E-eu… – Tentou falar, mas sentia-se ameaçado, de forma que teve que se afastar, deu um passo até o guarda roupas, onde se escorou. Hian não o seguiu, sentia o sangue fervendo nas veias e a ansiedade consumindo-lhe as entranhas, mesmo assim controlava-se da melhor forma possível – Me desculpe, eu não sabia se iria te dar essa notícia. – Abriu os braços. – Achei que só te causaria dor, então e-eu… – Hian se afastou, colocou-se no canto oposto do quarto, não encarava o padre Paulo, olhava o chão – eu queimei a carta, meu jovem, não posso te mostrar, mas não havia nada de mais nela, eu juro.

– Padres não juram! – Berrou. – Agora jure que não sabia onde minha mãe estava! – O padre se encolheu. – Vamos, agora é a hora. Não quer que eu confie em você? Já que acabou de jurar, jure de novo. Você me escondia alguma coisa sobre ela, não é verdade?

– Eu não sei onde ela está – tentava mostrar-se sereno – eu recebi uma carta, me desculpe por ter pensado em te esconder isso, mas eu não sei onde ela está. Meu jovem, me escute, você precisa se acalmar… – Hian deu um tapa num copo de vidro que estava sobre a mesa, que voou se estilhaçando pelo chão.

– Mentira – agora tinha a voz seca e os olhos severos – você não queria que eu visse a carta, por isso queimou. Você sempre fez pouco caso da minha inteligência. Seu olhar é óbvio, eu só não entendo porquê faz isso, não quero acreditar que você seja culpado de alguma coisa, mas… – seus olhos encheram-se de lágrimas – mas é tão claro pra mim que você esconde segredos. Por que faz isso?

– Eu não tenho escolha – tinha na voz uma melancolia que Hian nunca havia visto. Ficaram em silêncio por alguns segundos, mas que pareceram como horas. Ele se lembrou da porta, da sua resolução e dos planos que tinha de desvendar aquele mistério, todas essas ideias borbulhavam em sua mente enquanto ele encarava as feições tristes do padre. Mas o peso do ambiente causou-lhe uma tremenda fadiga e sentiu uma súbita vontade de desistir de tudo.

– Vou embora, não dá mais pra viver com você. Não dá pra ficar aqui sabendo que você mente pra mim. Preciso encontrar ela, se não quer me ajudar, eu… – viu o olhar de espanto que o padre dirigiu a ele e calou-se.

– Não, você não pode fazer isso. Por favor, me escute, você não vai conseguir encontrar sua mãe neste mundo, não faz sentido sair por aí procurando por ela – disse encurtando a distância entre os dois, colocando-se no centro do quarto.

– Eu não acredito em mais nada do que você fala – a feição do padre se deformou – você mente pra mim descaradamente, e ainda acredita que eu vou confiar quando me diz que ela está morta?

– Eu não disse isso! – Esbravejou – Não está morta, meu jovem, não está, não pode estar – comoveu-se a ponto de surpreender Hian – mas está muito doente e é isso que a carta dizia. Mu-muito doente, Hian – os olhos dele derramaram lágrimas, ele procurou a cama para se sentar.

Hian colocou-se de frente para ele e o agarrou pelos ombros.

– Como sabe disso? Onde ela está? – O sacudiu. O sangue fervente já não podia ser controlado. Sentia que sua visão o deixava e uma dor crescente aparecia na nuca, chacoalhou sua própria cabeça tentando resguardar os sentidos – como sabe disso? – Berrou de novo.

– Eu já disse! A carta…

– Quem enviou? Onde ela está? Me fala! – Foi empurrado para trás, quietou-se ofegante.

– Você precisa se acalmar, por favor. Eu te prometo, vou tentar…mas me dê algum tempo. Fique calmo – Hian nem escutou aos seus protestos, virou-se e deixou o quarto. Tinha passos firmes e rápidos – Aonde está indo? Volte aqui, não faça nada idiota, Hian! – O padre gritou, mas ele andava rápido, de modo que num instante as advertências do padre ficaram para trás.

Atravessou o portal que dava ao subsolo da igreja e se dirigiu até a porta de ferro azul. Com toda sua força a chutou uma, duas, três vezes. O estrondo era enorme. A cada chute, Hian era jogado para trás pela sua própria força, mas a porta não se movia nem uma polegada. A poeira acumulada nas ranhuras dos seus desenhos explodiam no ar enquanto Hian continuava a chutar. Quando notou que os chutes não estavam adiantando nada, num ato de desespero começou a socá-la e depois jogou-se contra ela. Mirava o ombro contra a porta e destemidamente pulava em sua direção. A porta o jogava para trás e ele caia batendo as costas na parede oposta. Já completamente ofegante, com as mãos machucadas e a dor na nuca mais forte do que nunca, foi abraçado pelo padre.

– Acalme-se, ela viu seu desespero, vamos ser puxados, Hian, vamos ser puxados, acalme-se… – disse com olhos esperançosos e uma voz trêmula.

Capítulo 1

Destaque

I

Na madrugada, Hian caminhava preocupado por uma rua deserta. Tinha as mãos no bolso e a cabeça enfiada dentro das golas de um casaco. Andava emborcado, em parte para se esconder e em parte para se proteger daquela brisa que soprava de tempos em tempos. Descia a rua pelas sombras e evitava também os barulhos desviando-se das folhas secas pela calçada. Não era tão tarde, de modo que as pessoas naquelas casas poderiam estar acordadas e qualquer um que colocasse a cabeça para fora da janela e o avistasse seria um problema.

Parou numa esquina, olhou para um lado e depois para o outro. Encostou a mão numa cerca enferrujada e pulou para dentro da varanda de uma casa. Um cachorrinho veio saudá-lo, ele afagou o bichinho, que caiu de barriga para cima e língua para fora. Seguiu por um caminho de pedras até os fundos da casa, o cachorrinho mordiscava a barra da calça, mas era de um silêncio impressionante, como se já estivessem acostumados a esse ritual desde que o animal era só um filhote. Hian encontrou uma janela aberta e pulou para dentro, onde já caiu de joelhos num colchão macio.

— Que susto — essa frase foi sussurrada no ar. Ele sabia que era Maria, mas os olhos ainda não haviam se acostumado à escuridão — Ninguém te viu, né?

— Não, claro que não…acho que não — deixou o corpo cair de lado. Sentiu o calor de Maria diante dele. Ela conteve uma risadinha. Hian inclinou o rosto para frente apostando que ali encontraria os seus lábios, mas errou e acabou beijando os seus cabelos.

— Que bom — ela o apertou com os braços e as pernas e depois deu-lhe um beijo — fiquei te esperando hoje na aula — disse ainda com a boca bem perto da sua, ele sentiu o hálito de pasta de dente — posso saber o por que não foi, danadinho?

— E eu tenho que te dar satisfação? — Percebeu que ela cravava os dedos entre as suas costelas, teve cóssegas e soltou um gemido — Se me apertar desse jeito, vou acabar acordando seu pai.

— Larga de ser frouxo, não aguenta um apertãozinho? — ela fincou ainda mais forte as unhas nas costas de Hian, que dessa vez ficou imóvel — tá querendo se fazer de durão? — Beijou-o, mas só como uma desculpa para mordê-lo nos lábios. Dessa vez Hian não aguentou, afastou-a um pouco e ela se virou para rir. Ele a laçou pela cintura e puxou-a para perto do corpo, ela tentou sair, mas não conseguiu. Hian a segurou com uma das mãos e com a outra tirou o cabelo do caminho do pescoço, onde descontou a mordida. Maria soltou um gemido agudo e alto, que assustou a ambos. Ficaram imóveis, tentando escutar algum barulho dos quartos dos pais ou irmãos. — Meu deus, desculpa, amor — virou-se mais uma vez para Hian. Ele conseguia enxergá-la e como se a tivesse visto só agora, sorriu. — Que foi?

— É que demoro um pouco pra te ver — se beijaram outra vez — por causa da luz…

— E não se assusta? — Maria colocou-se dentro dos braços de Hian e encostou a cabeça em seu peito.

— Claro, nunca vi mais feia, mas, mesmo assim, te amo — levou uma cotovelada nas costelas — acho que vou embora, já apanhei demais por hoje.

— Se ficar, vai apanhar mais, mas se for embora, não precisa voltar nunca mais.

— Então diga que eu fico — Maria espirrou, pegou a mão de Hian e a usou para secar o nariz — Ah, não, que nojo — espirrou de novo e fez tudo exatamente igual — Ei, vai acordar seus pais desse jeito.

— O que você quer que eu faça? Não dá pra segurar espirro — Hian ficou com cara de deboche enquanto secava as costas das mãos no lençol — Você ainda não me respondeu, por que matou aula hoje? Tá de rolo por aí não, né?

— Estou sim, mas não foi por causa disso.

— Vai brincando, Hian…— Maria disse levantando a cabeça para encará-lo nos olhos. — Não vem não, viu. Agora fala logo por que não foi ao colégio, tá me matando de ansiedade.

— Você que não me deixa falar! — disse isso mais alto do que pretendia.

— Psiuu…— ficaram imóveis de novo, a casa ainda estava completamente silenciosa — Dessa vez eu achei que tinha escutado um barulho.

— Foi a Nina, lá fora — tinha os olhos arregalados e os ouvidos atentos — Se o seu José acorda, eu tenho que pular essa janela na hora e correr.

— E me deixar dormir sozinha?

— Claro, você nem se importa. Eu me arrisco quase todas as noites e você não está nem aí — Maria deu uma risada muda, colocou-se de joelhos e montou Hian.

— Não tem nem vergonha de dizer umas coisas dessas. Nem durmo quando você não está aqui — abaixou-se sobre ele, que a acariciou nas costas. Ainda sobre ele, colocou-se ereta mais uma vez — Agora me fala, pela milésima vez, por que não foi à aula? — disse com a voz manhosa deitando-se de novo sobre ele e dando-lhe um beijo no pescoço.

— Tive uma discussão com o padre antes da aula, fiquei nervoso e desviei o caminho — Maria fez uma cara de desaprovação e desmontou-se — não quer nem saber o motivo e já está me condenando?

— Quem disse que estou te condenando?

— Depois de dois anos de namoro, conheço cada uma das suas caras.

— Conhece essa? — levantou só um lado dos lábios, uma sobrancelha e mostrou a língua — Quer dizer que você é um babaca.

— Essa é uma das que você mais faz. Acho até que é a sua cara normal, não é?

— Vou acordar meu pai e dizer que você invadiu a casa e veio aqui me violentar, quer continuar com essa brincadeira? — disse sorrindo com malícia. Hian tocou-a no seio, mas recebeu um tapa na mão — agora não é hora pra isso, vamos, fala, por que brigou com o padre? — ele se virou para encarar o teto e repousou o braço sobre a testa — Hian, deixa de ser criança, conta o que aconteceu…— Maria o abraçou colocando metade do seu corpo sobre o dele — Às vezes eu vou te contar, viu, você fica igualzinho uma criança.

— É que você fica do lado dele sem nem saber a história.

— Meu Deus, não estou do lado de ninguém, só acho que… — Hian apertou os olhos — acho que ele é uma pessoa sensata e que ta-al-vez você não tenha entendido ele muito bem — ele franziu a testa e balançou a cabeça.

— Viu como pra você eu não o entendi muito bem. É sempre assim, eu não entendo o padre…eu não tenho sensibilidade… — fechou os olhos — vamos dormir.

— Não, amor, para com isso — Hian sentiu os lábios dela na bochecha — acorda, amor, vamos conversar — Maria suspirou — Vamos, Hian, deixa de ser essa criança esquentadinha — ele sentiu um beliscão nas costelas — Vou perder minha paciência — disse com uma voz ríspida que o fez abrir os olhos.

— Nossa, como você é enjoada.

– Então é assim que você quer me tratar? – ela se sentou olhando-o severamente.

– É assim mesmo.

– Então pode ir embora, Hian – Maria apontou para a janela.

– Você está falando sério? – ela se calou, mas ainda manteve o braço apontado para a janela – Maria, está falando sério, quer que eu vá embora? – ficou calada mais uma vez – se é assim, então eu vou – sentou-se, mas quando foi se levantar, ela o agarrou pela cintura.

– Nossa, como você é babaca.

– Foi você quem me pediu para ir – abriu os braços. Ela o empurrou de volta para cama, onde os dois caíram deitados.

– Já te disse mil vezes que não é por que te peço para ir embora que você deve ir, como você é burro.

– Burro?

– Sim, bastante. Se tivesse ido, não te veria nunca mais, teria me perdido pra sempre – sorriu se aconchegando mais uma vez em seu peito.

– É mesmo? – Compartilhou do seu sorriso.

– Talvez…mas agora é sério, vamos, fala o que foi que aconteceu entre você e o padre Paulo – perguntou levantando-se um pouco da cama e encarando-o. Sentiu uma brisa fria vinda da janela aberta por onde Hian havia entrado e estremeceu. Ele a abraçou.

– Hoje antes de ir para aula, apareceu um homem doente na igreja pedindo que o Padre rezasse para que ele fosse curado. Eu escutei o padre dizendo que atenderia ao pedido e ainda fez um discurso sobre a importância da fé na cura e esse tipo de coisa. Eu entrei no meio, disse que a cura vinha com um médico e um hospital, não era com orações. Ele deu aquele sorrisinho cínico pra mim enquanto o homem estava lá, mas depois se irritou, disse que eu não entendia nada e me passou um sermão, que pra falar a verdade eu nem prestei atenção. É sempre a mesma coisa, que os caminhos de Deus envolvem a todos até mesmo os médicos e que isso não muda nada, mas não entendo porque ele não aconselha os doentes a rezarem menos e a tratarem mais da saúde se os caminhos de Deus estão tão definidos – Maria gemeu – que foi?

– É que essa não é nova, certo?

– Não, não é, mas que escolha eu tenho? Ficar olhando ele mentir para as pessoas? Elas estão doentes, Maria, o que adianta rezar? – agitou-se na cama enquanto falava.

– Olha a irritação, amor, eu sei que não adianta nada, mas é que tem gente que também não tem mais nada pra fazer no hospital. Se o padre Paulo achou melhor confortar a pessoa e não falar na-da sobre um médico, ele tem os seus motivos. Você não confia nele? – Hian bufou.

– Mais ou menos…

– Mais ou menos? O homem te criou sem pedir nada em troca, como assim mais ou menos?

– Você não o conhece tão bem quanto eu. Ele tem os seus mistérios, quero dizer, acho que tem, às vezes ele é tão estranho – Maria franziu o cenho, ainda olhando para Hian fixamente – aquela maldita porta que está sempre trancada, aquilo me deixa fora do sério.

– De qualquer forma, eu não ficaria tão irritado com isso, ele nem deve se lembrar mais dessa discussão de vocês.

– Não estou mais irritado. Fiquei na hora, mas agora estou tran-qui-lo. – Sorriu. – como foi que eu tive a sorte de ter a garota mais bonita dessa cidade? – apertou a mão de Maria e a beijou.

– Ah é? E por acaso conhece todas para saber se sou a mais bonita?

– Acho que nós dois conhecemos… – tiveram que conter uma gargalhada.

– É verdade, pensando bem acho que conhecemos todo mundo por aqui mesmo. Mas um dia nós vamos sair daqui, Hian, pra acabar com essa mesmisse.

II

Hian dormiu mais do que deveria, acordou com o sol nascendo e o barulho de Seu José tomando café da manhã. Maria ainda estava mergulhada num sono profundo, o que era comum, normalmente ele saía pela janela e nem a acordava. Estava deitado de lado, com o braço esquerdo de baixo do corpo da namorada e a abraçava com o outro. O quarto começava a sair da penumbra por causa dos raios de sol alaranjados que entravam cortando a parede oposta na metade. Hian abriu os olhos, sentiu o cheiro dos cabelos de Maria e sorriu. Só quando tomou consciência de que estava atrasado para sair dali  que arregalou os olhos e puxou de uma só vez o braço preso. Maria caiu da cama. Num pulo colocou-se de pé completamente espantada. Hian não precisou dizer o que estava acontecendo, ela mesmo ouviu o pai na cozinha e apontou para a janela empurrando-o.

– Ei, filhota, que barulho foi esse? – a voz estrondosa do pai chegou até eles, logo escutaram também os seus passos. A casa era pequena, míseros oito passos daquelas pernas longas para percorrer da cozinha ao quarto.

Hian sentiu o corpo amolecer e um frio percorrer-lhe do dedão à garganta. Colocou-se de pé em cima da cama e levantou as mãos na frente do corpo, como quem se protege de um ataque. Uma fresta se abriu, mas antes que a porta fosse escancarada, Maria saltou e a segurou.

– O que é isso? – Seu josé perguntou nervoso.

– E-estou tro-trocando de roupa, p-pai. Que droga! Já disse que não pode sair abrindo a porta do quarto das pessoas assim – tinha a voz entrecortada e Hian via que seu rosto normalmente cor de bronze estava completamente vermelho.

– Mas já? Está muito cedo, só tem que ir pra escola daqui duas horas…e você nem tomou o seu banho – parado sobre a cama, Hian observava a cena. Maria lançou um olhar de ódio em sua direção e apontou furiosa para a janela.

– Não estava colocando o uniforme, pai. Que saco, tenho que dar satisfação de tudo? Eu estava tirando o pijama – fez alguns segundos de silêncio do outro lado, Hian abaixou-se para pegar o tênis – Tirando o pijama e colodando outra roupa para tomar café da manhã com o senhor – Hian se empoleirou na janela e mirou Maria que mandou-lhe um beijo e uma piscadela.

– Ah tá, mas por que tão cedo?

Hian pulou para o outro lado.

– Não consegui dormir, só isso.

Correu curvado pelos fundos da casa até o jardim. Logo foi abordado por Nina, afagou a cachorrinha mais uma vez e se despediu. Para sua sorte, a rua ainda estava deserta, então pulou a cerca, entrou atrás de uma moita e calçou o tênis. Saiu de lá sentindo-se livre do perigo, mesmo que o coração ainda estivesse acelerado. Recompôs a postura e seguiu em direção à igreja onde morava como se nada tivesse acontecido.

No caminho para casa indagou-se sobre a sorte e o que poderia ter acontecido caso Seu José, talvez o homem mais sistemático e conservador daquela cidade, o tivesse pego no quarto da filha com os dois completamente descabelados, ele sem o tênis e ela de pijamas. Não haveria desculpa que pudesse justificar aquela cena. Hian achava bem fácil imaginar o homem perdendo a cabeça e partindo para cima dele completamente descontrolado. Não gostava nem um pouco dessa ideia e o resultado inevitável disso seria ele levando uma surra, já que Seu José era, também, um dos homens mais robustos e fortes da cidade, mesmo com a idade já avançada. Hian desceu a rua agradecido por como as coisas se saíram. Logo chegou à igreja.

Entrou por uma portinha na lateral da igreja e subiu uma escada à sua esquerda que dava direto para o quarto. Abriu a porta e sentiu o cheiro do ranço daquele cômodo sem janelas que havia sido adaptado para servir de quarto. O lugar era sempre escuro e úmido, tudo piorava com o  hábito de Hian de colecionar velharias como discos de rock, vitrolas e livros empoeirados. Tinha ainda por cima a mania de deixá-los todos espalhados em cima da cama, de uma escrivaninha e de uma cadeira caindo aos pedaços. Qualquer pessoa que entrasse ali, sentiria algo de melancólico na aura daquele lugar. Mas Hian estava acostumado e até gostava de viver ali. Costumava dizer que o quarto de Maria não era aconchegante o suficiente e completamente sem personalidade, já ela odiava entrar no quarto dele, porque começava a espirrar instantaneamente.

Hian tirou a camiseta e jogou-se na cama para aproveitar mais uma hora de sono antes de ter que se aprontar para o colégio. Já havia matado aula no dia anterior, por causa da discussão com o padre Paulo. Apesar de não ser o aluno mais aplicado de todos, tinha o sonho de ser médico, então precisava estudar. Deitou com a barriga para baixo, com uma das pernas fora da cama e ainda de tênis. Teve um sono péssimo. Quase arrependeu-se de ter dormido, quando despertou uma hora depois, parecia mais cansado do que estivera. Esfregou os olhos, soltou um suspiro profundo, lembrou-se que dessa vez deveria sair pelos fundos para não correr risco de cruzar com o padre Paulo e foi se aprontar.

Conseguiu sair da igreja meia hora depois, estava de banho tomado, uniforme e mochila nas costas. Tomou a rua e a subiu, a escola ficava a quatro quadras de distância. Enquanto andava, tirou do bolso um maço de cigarros, pegou um e acendeu. Cumprimentou uma senhora que estava sentada na porta de casa e uma outra que varria a varanda. Desviou-se de um cachorro de rua com um pedaço de osso na boca e foi provocado por um rapaz mais velho que passava de bicicleta. Nenhum evento especial, era o que acontecia todas as manhãs, conhecia todas aquelas pessoas por nome havia muito tempo. Andava tranquilo com passos vacilantes e tragando o cigarro tendo de cor aquele cenário. Passou pelo posto de saúde, pela delegacia e, por fim, ao lado da prefeitura avistou o colégio. Apagou o cigarro e entrou. 

Foi o último a se colocar dentro da sala, no encalço da professora, uma senhorinha de cabelos brancos. Sentou-se atrás de Maria, que tentou fazer uma careta desaprovando o atraso, mas foi puxada por ele e recebeu um beijo na bochecha.

– Não acredito – ela sussurrou, a aula já começava – você veio fumando? – Hian abriu os braços.

– Qual o problema?

– O problema sou eu aguentando você tossindo a noite inteira no meu ouvido – deu-lhe as costas.

– Psssiu, foi só um, não mata ninguém – inclinou-se em direção a ela.

– Não quer ser médico? Deveria saber que mata sim – disse por cima do ombro.

– Quero sim…é que acho que nesse caso os benefícios compensam os riscos – ela virou o corpo para ele, tinha os olhos cerrados e o dedo indicador levantado.

– Uma tosse no meu ouvido, Hian, uma tosse e eu arranco essa carteira de cigarros de você e a jogo no lixo. Está me escutando? – a turma inteira escutou. A galera do fundão começou a fazer barulhos e a soltar gargalhadas.

– Pelo amor de Deus, vamos parar com isso e prestar atenção. Vocês não tem limites, já disse que vocês precisam de limites. Você aí, para de gritar igual a um animal, rapaz, que isso? Onde estão os limites? – reclamou a professora.

– Olha, o que é aquilo? – Hian apontou para Oscar, um jovem magricelo na primeira cadeira, a mais próxima do quadro. Maria virou o rosto para vê-lo recebendo um bilhetinho da garota ao seu lado – meus olhos estão me enganando? – conteve uma risada – nosso amigo nerd está trocando mensagens com a Luíza? – Maria carregou o cenho. Os dois viram ele lendo o bilhetinho e sorrindo. Claramente ansioso ele escreveu uma resposta e passou-a de volta para a garota que também parecia feliz – na verdade… – Hian tentou dizer, mas estava incrédulo – na verdade ela nunca se sentou ali…ela é da galera do fundão, não é? – Maria acenou que sim.

– Isso não é coisa boa – Disse preocupada, Hian ficou sem entender – eles estão querendo aprontar alguma pra cima dele, tenho certeza. Essa putinha nunca daria moral pra ele.

– Ah, vai que…

– Vai que…nada. Isso não tá certo – Luíza recebeu a resposta e acenou para Oscar com um joinha, depois pegou seu caderno, levantou-se e foi se sentar no fundão ao lado dos amigos – que coisa esquisita.

– Que bom pro Oscar, tava precisando mesmo de uma garota – Maria virou-se mais uma vez para Hian, tinha a feição deformada de fúria.

– Que bom? Deixa de ser burro, seu melhor amigo tá sendo passado pra trás e você tá achando bom? – dessa vez falou baixo e ninguém ouviu. A professora escrevia no quadro, de modo que não via o corpo de Maria completamente de costas para ela.

– Calma, no intervalo a gente pergunta pra ele, às vezes você tá viajando.

Tocou a sineta para o intervalo. Oscar se aproximou de Hian sorridente e se sentou sobre sua mesa. Maria logo se colocou de pé a fim de vê-lo melhor.

– E então, garotão, o que foram aqueles bilhetinhos? – Hian encostou-se na cadeira.

– Vamos, fala… – Maria disse impaciente. Oscar fez um gesto com as mãos pedindo que eles esperassem por algo, depois apontou para Luíza e sua turma, que se levantavam. Eles saíram um por um da sala de aula, Hian percebeu que Luíza disfarçou um olhar em direção à Oscar um pouco antes de se retirar – Agora pode falar? – Oscar se levantou da mesa e com os punhos cerrados comemorou como se tivesse acabado de ganhar um jogo muito importante. Maria cruzou os braços e ficou a olhá-lo com cara de deboche. Um colega do outro lado da sala se assustou – as pessoas estão olhando, Oscar.

– Não tô nem aí, esse é o dia mais feliz da minha vida – se recompôs, mas ainda estava ofegante – eu sempre soube que um dia todo meu esforço seria recompensado.

– Então fica calmo e conta o que aconteceu – Hian disse.

– Se eu fosse você, não ficaria tão felizinho… – ela se sentou. Oscar puxou uma cadeira e a colocou ao lado da mesa de Hian, de modo que a mesa ficou no centro e entre os três.

– Por quê? – Parecia confuso.

– Maria não vai muito com a cara dela e tem uns preconceitos… – ela tentou protestar -Vamos escutar ele primeiro, né?

– Então… – Oscar limpou a garganta para começar a falar – Nem sei por onde começo. Enfim… – achou uma mancha de tinta na mesa o começou a tirá-la com a unha enquanto falava – Cheguei hoje mais cedo, quero dizer, no horário que sempre chego, mas é que vocês sabem, costumo chegar mais cedo do que todo mundo, gosto de ter certeza que meu lugar vai estar lá e preparar minhas coisas, evitar imprevistos…hoje ela, a Luíza… – sussurrou o nome da garota – foi a segunda a chegar, entrei na sala de aula e ela entrou logo atrás de mim – uma garota passou pela porta, os três a olharam rapidamente – Que susto…achei que era ela – voltou a mexer na mancha de tinta – Como eu ia dizendo, ela chegou logo depois de mim, mas ao invés de ir lá pro fundão, colocou a mochila lá do meu lado. Eu até achei engraçado, porque pensei que ela queria mudar de vida e começar a estudar, mas… – soltou uma gargalhada – não era nada disso.

– Era por causa de você? – Hian perguntou empolgado.

– Mais ou menos – Maria cruzou os braços e virou os olhos – ela me disse que precisava conversar uma coisa, estava vermelhinha de vergonha e eu também fiquei super sem graça, nunca imaginei uma garota como a Luíza querendo conversar qualquer coisa comigo. É a Luíza, você me entende, não é? – perguntou a Hian.

– Nossa, sim

– Sim? Entende o quê? – Maria perguntou enfurecida.

– En-ten-do que-e…

– Parem com isso, deixa eu terminar de contar antes que o intervalo acabe.

– Isso, pode terminar de contar – disse Hian apontando para Oscar. Maria não disse nada, mas o encarou ameaçadoramente por mais alguns segundos antes de voltar sua atenção à Oscar.

– Eu só acenei e esperei ela falar, cara. Pra falar a verdade eu nem sabia o que fazer, era uma situação meio que surreal, entende? Ela pediu pra eu não achar estranho o que ela ia dizer e me fez prometer que eu não iria contar a ninguém – continuou a falar aos sussurros fazendo com que os dois se inclinassem sobre a mesa em sua direção – daí ela me disse que estava de recuperação e que a prova dela é hoje à tarde e que quer que eu faça a prova pra ela num esquema muito louco que ela inventou. Eu avaliei o esquema e parece que pode dar certo.

– Como? – Maria perguntou.

– Ela vai levar uma folha em branco pra prova e vai se sentar ao lado da janela, daí ela me passa a prova pela janela enquanto fica disfarçando que tem alguma coisa na mesa com essa folha em branco e eu do outro lado faço a prova. Depois a gente troca de novo…sucesso – Hian aprovou – uma boa ideia, não é?

– E eu consigo até imaginar o que ela vai te dar em troca…o motivo de você estar tão feliz.

– Ela não me disse com todas as letras e não tive coragem de perguntar, mas disse que eu poderia pedir qualquer coisa e falou ainda que se desse certo, hoje mesmo a gente poderia se encontrar, sair pra algum lugar e que ela pagaria por tudo. Hoje mesmo, cara.

– Se você quer alguma coisa e nós sabemos que quer… – Hian abriu um sorriso, Maria mostrava-se aborrecida – deveria falar antes de fazer o esquema, se for depois ela pode negar, daí você não tem mais nada pra negociar.

– É, pensei sobre isso, mas é que fiquei com vergonha e se ela nem tivesse essa possibilidade em mente?

– Ela foi enfática no ‘qualquer coisa’? – Hian perguntou

– Sim, bas-tan-te.

– Então é isso, cara, se não disser nada pode perder uma oportunidade in-crí-vel – Maria franziu o cenho e encarou Hian com ódio no olhar.

– Ela tem essa possibilidade em mente sim. Esperava que você pedisse por isso, acha que aqueles peitões conquistam tudo, mas também não vai cumprir porque ela não presta e nunca vai querer ser vista com você, mas são vocês que não deveriam querer serem vistos com ela – Maria disse irritada – Sério, vocês dois são ridículos. Isso é muito errado e você, Oscar, só vai se ferrar se envolvendo com essa putinha – virou-se assim que terminou.

– Se ela já imaginava que eu poderia pedir isso, acho que vou falar… – disse Oscar ignorando a raiva de Maria. A sineta tocou, Luíza voltou para dentro da sala de aula e Oscar sentou-se na frente, onde era seu lugar. Maria continuou mal-humorada e Hian sabia que o melhor a fazer era esperar.

III

Hian e Maria saíram do colégio um pouco depois do meio dia. Iam juntos até a casa do Padre, que ficava nos fundos da igreja, para almoçarem. Maria ainda estava com a cara fechada, respondia a todas as perguntas de Hian de forma curta e grossa. Enquanto andavam, ele tentou abraçá-la, mas ela se esquivou, então ele tirou um cigarro da mochila e acendeu-o. De imediato recebeu um olhar desaprovador.

– Ainda lembra do que eu te disse, não é? – Afastou-se dois passos dele.

– Eu ainda não tossi – disse com malícia – ei, por que está assim desde o negócio do Oscar? – não recebeu resposta – Maria?

– Sim? – fez-se de desentendida.

– Perguntei por que está assim, com essa carranca.

– Sabe, eu acho que você queria estar no lugar do Oscar, ficou tão empolgado com a oportunidade incrível que ele está tendo – disse andando, Hian só conseguia ver a parte de trás da sua cabeça, os cabelos ondulados e castanhos um pouco abaixo dos ombros chacoalhanto ao ritmo dos seus passos.

– Ah, eu sabia que você tinha ficado com ciúmes – ela se virou rapidamente, mirou-lhe profudamente nos olhos e voltou a andar – O quê? – Hian perguntou assustado – não era ciúmes? Era o que então? Maria? – ela não disse mais nada. Hian terminou o cigarro, apagou-o na rua e entrou pela lateral da igreja. Ele viu que Maria havia deixado sua mochila no pé da escada e entrado rumo à casa do padre, portanto teve que subir sozinho até o quarto para deixar as mochilas.

Estava aflito, brigara com o padre no dia anterior e desde então não o vira. Havia matado aula e depois encontrado Oscar na saída do colégio. Ficaram o dia todo na rua jogando conversa fora e fumando alguns cigarros. No final do dia ele comeu um sanduíche e esperou até um pouco depois da meia noite para ir até Maria. O padre não era o tipo de pessoa que guardava rancor, o mesmo não podia ser dito de Hian. Estava com raiva e ainda que não quisesse continuar a briga,  sentia medo das reações que poderia vir a ter.

Assim desceu receoso as escadas do seu quarto, atravessou o salão da igreja até os fundos, abriu uma porta dupla, se deparou com o jardim do padre Paulo e atravessou-o entrando na casa já pela porta da cozinha. O padre e Maria estavam sentados, conversavam sobre o macarrão ao molho bolonhesa disposto no centro da mesa. Hian pegou um prato, serviu-se e sentou-se ao lado de Maria, que fingiu nem notar sua presença. Padre Paulo mirava-o desde a hora que entrou até o momento em que se sentou, Hian notou e imaginou que talvez ele esperasse uma saudação, mesmo assim não fez. Como se desistisse, o Padre se serviu e convidou Maria para que fizesse o mesmo.

– Você não voltou pra casa ontem? – perguntou o Padre já com o prato cheio. Era um homem pequeno, pálido e miúdo, de modo que se não fosse a calvície pareceria o mais jovem daquela mesa.

– Cheguei quando você já dormia – disse enquanto mastigava.

– Vocês acham que eu não sei o que fazem? – padre Paulo olhou tanto para Maria, quanto para Hian. Olhava de baixo para cima, quase como uma animal ou alguém querendo olhar por cima dos óculos – Eu já repeti milhões de vezes que não tenho pretensão de ser o seu pai, Hian, e muito menos o seu, Maria, mas preciso alertá-los que isso é perigoso. Eu conheço muito bem o seu pai, Maria, o senhor José é um homem rígido nos seus costumes e ainda por cima não gosta dele – apontou para Hian – se descobrir… – levantou as sobrancelhas – vou ter que transformar outra sala dessa igreja num quarto pra você – Maria segurou uma risada, já o padre soltou uma sonora gargalhada – para com isso, viu – disse a Hian dando-lhe um tapa na mão – Por que está com essa cara, meu jovem? Entrou e não me cumprimentou, agora está com a cara amarrada, o que aconteceu? Vocês dois brigaram?

– Eu e você brigamos, não se lembra? – Hian disse tentando colocar uma feição de espanto no rosto. Sabia que o padre não queria levar isso adiante, mas ele sentia que a discussão ainda não estava acabada.

– Ah não, Hian – o padre Paulo disse esfregando os olhos – vai começar com esse assunto de novo? Você não conhece o homem, para de ser tão arrogante, por favor.

– Eu escutei a conversa inteira, não preciso conhecer o homem pra saber o que aconteceu.

– Você acha que chegou uma pessoa doente aqui e eu poderia ter aconselhado ela melhor, falando… – levantou os pequenos braços, olhou para o teto imaginando uma cena e começou a gesticular como numa peça de teatro – ‘olha, senhor não sei das quantas, a igreja não pode resolver o seu problema, o senhor precisa é de um médico’, é isso que você queria? – Hian ficou em silêncio – Você acha que ele não sabe o que um médico faz? – perguntou ironicamente – aquele senhor, meu jovem, está em estágio terminal, os médicos desistiram dele, por isso ele estava aqui dentro e a última coisa que ele precisava ouvir era você, que vive aqui dentro, que é pra todo mundo… – meneou a cabeça – como meu filho, dizer a ele que só a medicina poderia curá-lo, que Deus nunca poderia fazer uma coisa dessas. Qual esperança restou a esse homem? – Hian arregalou os olhos, as mãos começaram a tremer e o estômago fechou.

– Por que não me disse isso antes? – Maria colocou a mão sobre seu antebraço.

– Eu não preciso te dizer essas coisas, é você quem precisa confiar em mim – o padre voltou a comer, Maria fez o mesmo. Hian ficou estático encarando o macarrão. Sentia-se profundamente irritado, porém não sabia exatamente o porquê. Talvez só estivesse com raiva de ter feito papel de idiota, perdido a discussão ou incrivelmente tocado pela história do homem, a injustiça da vida, o absurdo que era não existir mais esperança para ele.

– Não dá pra confiar em você – disse dando vazão à raiva inexplicável que sentia. O padre não entendeu – não dá pra confiar num homem que mantém uma porta super esquisita trancada por nem sei quantos anos aqui dentro e ainda se recusa a falar o que tem lá dentro – o padre suspirou e afastou-se da mesa, de um jeito que pudesse respirar melhor – o que tem lá dentro, hein?

– Eu já te expliquei, essa igreja é muito antiga e guarda alguns segredos que não posso revelar, não tenho permissão, você precisa aceitar isso – disse com a voz serena.

– E a minha mãe? Ela trabalhava pra você, há onze anos ela sumiu do dia pra noite sem deixar pista nenhuma. Não se despediu e você não sabe de nada sobre o assunto. Quando eu era criança, não pensava muito sobre isso, mas agora sim… e você não concorda comigo que isso é muito suspeito? – o padre encarou o chão desistindo de argumentar.

– Você está sendo injusto – disse Maria tocando-o mais uma vez no braço, Hian se colocou de pé num pulo.

– Não estou sendo nada injusto, tudo isso é muito suspeito – ele apontou para o padre Paulo – sempre que eu falo sobre minha mãe, ele fica calado – falava agora com ódio na voz, resgatando toda a frustração da infância quando perguntava pela mãe ao padre e não conseguia nada – Todas as vezes, nunca me disse nada, só me deu uma foto, só isso. Um dia ela desapareceu e você não sabe de nada? Quer que eu acredite nisso? Olha pra mim! – gritou ao padre que ainda encarava o chão.

– Hian! – Maria gritou e se colocou de pé – o que está acontecendo com você? – Hian olhou-a como se tivesse despertado de um estado sobrenatural de consciência onde estivera por uma fração de segundo. Ficou  parado olhando Maria e depois o padre.

– E-eu, me desculpa – disse ao padre, que levantou a cabeça para mirá-lo – eu não acho que você tenha feito alguma coisa com minha mãe, mas tenho certeza que sabe de alguma coisa e não quer me contar e isso me deixa furioso – disse ainda claramente irritado, mas novamente com controle das suas emoções.

– Eu entendo sua raiva, ficar aqui sozinho…sem saber o que aconteceu, eu entendo, meu jovem – disse com um sorriso.

– Você jura que não sabe de nada?

– Padres não juram, Hian – disse e arrastou a cadeira mais uma vez para perto da mesa. Maria percebeu que os ânimos estavam mais calmos e sentou-se. Hian olhou o prato, balançou a cabeça e saiu dali, foi em direção ao seu quarto. Maria tentou impedi-lo, mas o padre acenou dizendo que era melhor deixá-lo sozinho um pouco.

Hian fechou-se em seu quarto e deitou de bruço sobre a cama. Ficou assim por um quarto de hora, até que escutou sua porta se abrindo. Virou-se para ver Maria se aproximando com um sorriso constrangido. Ela se deitou sobre ele e deu-lhe um beijo molhado na bochecha. Sua boca estava cheirando à molho de tomate. Hian ficou calado e manteve a cara amarrada. Estava triste por ter sido estúpido, não ter controlado suas emoções e entrado em outra discussão sem sentido com o padre.

– Eu nem deveria estar falando com você… – Maria disse se jogando de costas na cama ao lado de Hian – Que história foi aquela de oportunidade incrível? – Hian bateu com a palma da mão na testa e ameaçou colocar-se de bruço de novo, mas foi segurado por Maria – Tá bom, tá bom, vou te dar um desconto porque brigou com o padre.

– Eu não sei o que deu em mim…

– Acho que te conheço melhor que você mesmo – disse tirando delicadamente uma mecha de cabelo dele da frente dos olhos.

– Por quê? – ficou curioso. – Você ficou nervoso porque sentiu culpa. Na hora não soube lidar muito bem com isso, daí virou o foguetinho – Maria sorriu e se aninhou no peito de Hian – você é muito bom, meu amor, por isso se sentiu tão culpado de talvez ter machucado aquele homem – Hian escutou Maria e sentiu que ela estava certa, a irritação deu lugar ao remorso de ter feito o que fez – mas não precisa ficar assim, é muito difícil abalar a fé de uma pessoa, então ele provavelmente nem te deu ouvidos – os olhos de Hian encheram-se de lágrimas. Determinado a não se entregar, cobriu o rosto com o braço e disse que precisava dormir. Maria já estava sonolenta, fechou os olhos e logo adormeceu. Mas Hian ficou acordado, pensando sobre como era um absurdo as escolhas da vida diante da morte.