I
Hian acabou adormecendo. Acordou com o barulho de um espirro. Ainda de olhos fechados, tateou a cama tentando achar Maria, mas não a encontrou. Abriu os olhos e viu-a de pé no centro do quarto. A ponta do nariz estava vermelha, ela lutava contra aquela conhecida alergia. Estava sem blusa, com o sutiã à mostra e dobrando o uniforme. Ao vê-lo de olhos abertos, tentou saudá-lo com um sorriso, mas todos os músculos do seu rosto se contorceram mostrando que havia perdido a batalha, espirrou de novo.
– Ai, que droga…odeio seu quarto, quanta poeira – disse com uma voz entupida enquanto usava a mão para secar o nariz – não sei como consegue viver aqui dentro.
Ela terminou de dobrar a blusa e guardou-a na mochila. Hian a admirava em silêncio. Vendo-a daquele jeito, começou a desejá-la fortemente. Adorava o seu corpo esguio e os seios pequenos. Além disso, quando vestida raramente era notável que tinha as coxas e as nádegas mais ricas do que se poderia imaginar. Ele a viu curvada sobre a mochila, de costas para ele, esticou os braços mentais tentando abrir o fecho do sutiã, já conseguia imaginar os seus seios e os tocava com as mãos imaginárias. Nesse devaneio colocou um sorriso bobo no rosto. Ele nem notou quando Maria se levantou e ficou a olhá-lo espantada com o quanto ele estava aéreo, perdido em pensamentos libidinosos.
– Vem cá – pediu imediatamente depois de voltar à realidade – vem? – esticou os braços.
– Estou atrasada – disse com um sorriso malicioso nos lábios.
– Só um pouquinho – tinha a voz manhosa. Ela espirrou mais uma vez.
– Nem se eu quisesse. Aqui no seu quarto é impossível pra mim, amor.
– Claro que não, já fizemos antes. Quando a gente começa, você se distrai e a alergia passa – ela colocou a mão na cintura e ficou a encará-lo, como quem pensa sobre uma proposta. Correu em sua direção e pulou sobre ele. A cama chacoalhou e as molas rangeram. Hian tentou abraçá-la, mas ela o segurou pelos punhos e prendeu os seus braços acima da cabeça, nessa posição deu-lhe um beijo demorado que só aumentou o seu desejo. Ela descolou os lábios dos dele, mas ficou bem perto por mais alguns segundos, de modo que respiravam o mesmo ar. Ela mostrava um sorriso lascivo nos lábios.
– Estou atrasada – disse ainda em cima dele, mas afastando o rosto.
– Atrasada pra o quê?
– Marquei de estudar com a Clarisse quatro horas – ela soltou os punhos e se curvou sobre ele mais uma vez para beijá-lo no pescoço – você também tem que estudar, tem uma lista enorme de exercícios para fazer – cada palavra se encaixava no espaço entre os beijos que dava e recebia. Com as mãos livres, Hian a acariciava nos seios e nas costas. Ele percorreu-a pela espinha até o fecho do sutiã, onde tentou abri-lo. No susto ela se colocou ereta – N-não, amor, estou atrasada… – revirou os olhos mantendo o mesmo sorriso lascivo de antes.
– Atrasada pra estudar? Ninguém se atrasa pra estudar… – Tentou argumentar. Maria desmontou-se dele e abriu o guarda roupas – coloquei suas roupas na segunda gaveta.
– Ah, obrigada – disse docemente, mas se livrando completamente da aura sexual que a dominava há uma fração de segundo. Hian não sabia como ela conseguia fazer isso, se esquecer tão rapidamente do desejo, como se tivesse um botão de liga e desliga – você está melhor? – vestia uma blusinha vermelha justa ao corpo – o négócio da briga com o padre, está bem? – estava distraída enquanto se olhava pelo espelho curvando-se de um lado para o outro. Hian ficou em silêncio, refletiu e descobriu-se livre daquele remorso que o angustiara – Hein?
– Sim, estou. Só precisava de um tempo – viu-a deslizar um batom pelos lábios. Ela gemeu alguma coisa que significava que havia entendido, em seguida foi até a cama e sentou-se com as pernas cruzadas.
– O que vai fazer hoje? – Ele levantou os ombros – Nos vemos mais tarde lá em casa, naquele esqueminha? – Sorriu. Ainda deitado, Hian acenou que sim, ela se curvou e deu-lhe um beijo na testa – estou indo, acho melhor estudar, não quer ser um médico e tirar todos os doentes da igreja? – disse de costas, já saindo.
Hian ficou deitado por meia hora olhando o teto e refletindo sobre o que dissera ao padre. Não sabia exatamente porque tinha a certeza que ele escondia alguma coisa, mas essa certeza sempre existira. Lembrava-se que, quando criança, a feição do padre Paulo ao ser questionado sobre a mãe adquiria uma expressão de farsa e isso era fácil de notar, já que ele costumava ser um homem sincero. Hian questionava, então, os motivos que poderiam levá-lo a mentir. Cogitava a possibilidade de estar sendo protegido de uma decepção, talvez a mãe o abandonara sem qualquer motivo maior, havia saído no mundo em busca de outra vida e o deixara para trás como se não fosse nada. Seria muito doloroso se essa fosse a verdade e assim o padre Paulo poderia ter achado melhor esconder o que sabia.
Às vezes Hian também se deparava com a ideia de que a mãe poderia estar morta e o padre, não querendo destruir as esperanças dele de um dia vir a encontrá-la mais uma vez, esperava o momento certo para dizer que ela já não existia neste mundo. Não gostava de nenhuma dessas duas hipóteses, mas eram as que tinha, caso contrário o padre seria um homem ruim que havia feito alguma maldade à mãe, e isso parecia impossível. Diante dessas reflexões, sempre aparecia em sua mente aquela maldita porta na igreja que nunca se abria e o silêncio do padre sobre o assunto. Lembrava-se que costumava passar horas encarando os desenhos misteriosos daquela porta azul, percorria com as pontas dos dedos a textura moldada no ferro gelado. Alguma coisa ali o atraía. Ficara tão obcecado que o padre passou a trancar o acesso ao subsolo.
– Se ao menos eu soubesse quem eu sou… – Hian sussurrou. Para ele, o mais difícil era não conhecer suas origens, sentia-se como um estrangeiro. A mãe chegara sozinha à cidade para trabalhar na igreja. Hian descobriu que durante os quase dois anos em que ela ficou ali, praticamente não era vista. Muitos não se recordavam do seu rosto, já outros não chegaram nem a conhecê-la. O único contato de Hian com o passado era o Padre Paulo e ele claramente escondia alguma coisa. Enfureceu-se mais uma vez e uma resolução veio-lhe à mente – é a porta, aquela droga de porta, se eu descobrir o que está atrás dela, tenho certeza que descubro tudo – disse ainda olhando para o teto.
Colocou-se de pé energicamente, saiu do quarto, passou pelo salão da igreja e foi até os fundos, onde atravessou o portal que dava para o subsolo, por sorte ele estava aberto. Percorreu por vinte passos um corredor escuro e sujo, era mais úmido que seu quarto e aranhas corriam pelos cantos. Na extremidade do corredor, encarou a misteriosa porta de ferro. Como fazia quando criança, ficou a olhá-la. Tentava decifrar aqueles símbolos misteriosos, dezenas de círculos moldados sem qualquer ordem lógica. Sorriu como a maioria das pessoas fazem diante de uma tarefa impossível. A porta não tinha maçaneta, de modo que Hian tentou forçá-la para trás com as duas mãos, mas, como ele já imaginava, não aconteceu nada.
– Um dia… – disse a si mesmo percebendo a estranha aura que emanava daquele lugar – um dia…
II
Já quase noite, Hian estava escorado no muro do colégio esperando por Oscar, que se escondia atrás de alguma moita por ali e fazia a prova de recuperação de Luíza. Depois de alguns minutos, avistou dois colegas vindo em sua direção, andavam cansados carregando suas mochilas.
– Prova? – Hian perguntou quando eles cruzaram o portão.
– Sim… – um deles disse desanimado.
– Viu o Oscar por aí? – notou o olhar de espanto deles.
– Oscar, de recuperação? Isso é sério?
– N-não, ficou aqui para estudar, deve estar aí dentro, não viram ele em algum lugar? – balançaram a cabeça.
– Acho que não tem mais ninguém aí dentro, cara – disseram enquanto se viravam para ir embora, pareciam apressados. Com o olhar, Hian acompanhou-os rua abaixo.
Olhou para dentro do pátio e soltou um suspiro. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Oscar, mas depois de dez minutos ainda não havia recebido resposta. Já pensando em ir embora, reconheceu Luiza no pátio, ela se sentou sozinha em um dos bancos e acendeu um cigarro. Hian achou aquela uma ótima oportunidade para saber o paradeiro de Oscar e, além disso, fumar acompanhado. Aproximou-se dela com um sorriso estampado na cara, ela, por outro lado, ao vê-lo, fez menção de se levantar, mas, por algum motivo, se conteve como se tivesse perdido o tempo de sair de fininho. Hian a cumprimentou já pedindo emprestado o fogo. Tinha o seu, mas achava essa uma excelente forma de se aproximar de pessoas com quem não tinha tanta intimidade.
– Como foi a prova? – Acendeu seu cigarro, tossiu depois da primeira tragada e soltou um sorriso contido agradecendo silenciosamente porque Maria não estava ali. Mesmo que ele não tivesse malícia na pergunta, ela o olhou desconfiada, de tal forma que Hian decidiu fingir que não sabia de nada sobre os tais planos de cola.
Uma brisa começava a soprar anunciando a chegada da noite. Ao contrário da nitidez da brasa dos cigarros, as feições dos dois jovens estavam turvas na penumbra. Luíza encarava uma árvore distante no pátio transparecendo no rosto algo como receio ou ansiedade. Sem dizer nada, levantou-se e foi embora. Hian ficou imóvel, indignado por ter sido ignorado. Ficou a olhá-la se afastando a passos largos sem dizer uma palavra sequer. Ainda estupefado, sentou-se e se distraíu pensando na estranheza daquela cena, só despertou quando Oscar surgiu em sua frente com um ar de melancolia.
– O que aconteceu? – Hian perguntou sem cerimônias, mas antes que o amigo pudesse começar a falar, continuou – a Luiza acabou de sair daqui estranhíssima – Oscar gemeu alguma coisa, como que para demonstrar que já imaginava que isso pudesse ter acontecido – e você também está com a cara péssima.
– É… – disse com uma expressão de resignação – acho que a Maria estava certa, ela me passou pra trás e ainda por cima ficou com raiva de mim – balançou a cabeça demonstrando toda sua indignação.
– O que você disse pra ela?
– Nada! – Mirou os céus como se pedisse por uma intervenção divina – não tive coragem, mas ela me disse que sairíamos hoje, então achei que pelo menos isso tava garantido, entende? Você também achou, certo? Pois é, mas aparentemente não era bem assim, por isso que te falei, cara, a Maria estava certa, agora vamos embora, que saco, estou muito decepcionado, você entende, não é? – Emendava uma palavra na outra, quando terminou de falar, estava sem fôlego.
– Não, espera… – Hian se sentia confuso, não por causa da reação de Oscar, mas pela estranha atitude de Luíza – ela só disse que não ia cumprir o acordo e pronto? Virou as costas e saiu?
– Mais ou menos… – meneou a cabeça adquirindo um ar de preguiça ou angústia, Hian ainda não tinha certeza – quando ela saiu da sala, nos encontramos e ela me agradeceu, aí eu mencionei o que ela havia falado sobre sairmos ainda hoje, disse até que ela não precisava pagar, que eu pagaria pela minha parte, daí ela começou com desculpinhas esfarrapadas, me disse que hoje não podia, que o pai havia ligado e fazia questão que ela estivesse em casa. Umas besteiras, quem acredita nisso? Ela não vai cumprir, cara, simples assim, eu fui passado pra trás – estava agitado, balançando-se de um lado para o outro.
– Ela disse que não poderia sair ‘hoje’? Especificamente ‘hoje’? – Deu a última tragada no cigarro e jogou-o fora no pátio.
– Sim, ela disse hoje, por causa do pai dela, o que é uma desculpinha, você não acredita nisso, não é? – Oscar gemeu, deu um passo para o lado direito, outro para o lado esquerdo e depois se colocou de frente para Hian mais uma vez – eu disse que ela tinha prometido, fui um pouco agressivo, mas foi sem querer, daí ela achou ruim.
– Um pouco agressivo…quanto? – Estava assustado.
– Ah, na primeira vez eu falei ‘mas você prometeu’, ela argumentou que não podia hoje e que amanhã ou outro dia ela poderia, daí eu a lembrei que ela havia falado especificamente hoje e que isso parecia que ela estava me enganando, ela riu, assim, meio que debochando da minha cara e disse que sairíamos outro dia. Eu falei que não, que deveria ser hoje, era o combinado, entende? – Hian já conseguia imaginar a cena, conhecendo Oscar tudo ficava claro. Balançava a cabeça de um lado para o outro – ela ficou nervosa, gritou que hoje não podia e eu gritei de volta falando que ela não cumpria com a palavra, mas…sendo…
– Um babaca, não é? Ai, meu Deus…e ela?
– Me chamou de retardado e me deixou falando sozinho. Ah, cara… – gemeu – ela estava tão…não sei explicar, amigável no começo da conversa. Quando nos encontramos, ela me abraçou e agradeceu… – Hian escutou um barulho e logo as luminárias do pátio estavam acesas, as luzes iluminaram a face de Oscar revelando olhos vermelhos e inchados.
– Você estava chorando? – Hian disse espantado, Oscar tentou responder de imediato, mas a voz lhe falhou – Cara, você chorou? – Não conseguiu conter o riso, durante quase meio minuto Hian continuou rindo e Oscar aos poucos recuperou-se do estado de perplexidade em que havia entrado.
– Mais ou menos…um pouco, mas foi por causa da raiva, cara. Nós brigamos, ela me xingou e eu a xinguei de volta, foi tenso. Foi uma cena muito pesada e de uma vez. Eu te falei, ela me abraçou e daí segundos depois eu estava gritando com ela – Hian continuava a balançar a cabeça de um lado para o outro.
– Você chorou perto dela? -perguntou segurando uma gargalhada. Oscar olhou para cima mais uma vez e soltou todo o ar que tinha nos pulmões, em seguida encheu-os mais uma vez.
– Um pouco… – Hian engoliu a gargalhada ao ver o sofrimento com que Oscar respondia àquela pergunta – eu me desesperei, fiquei com o negócio da Maria na cabeça e acabei ficando com muito medo dela dar pra trás, daí fiz merda. Eu sei o que você tá pensando, que não era só uma desculpinha…
– E mesmo que fosse…
– Sim, que saco, foi ilógico da minha parte, era melhor pagar pra ver do que…brigar com ela e acabar com tudo – soltou uma risada de sofrimento tirando sarro da própria cara – eu não sei se você sabe, cara, mas é que eu gosto da Luíza já tem alguns anos e quando apareceu essa oportunidade, eu… – Oscar fechou os olhos.
– Acontece. – Sorriu. – Relaxa, conversa com ela, talvez ela ainda tope, mesmo que seja por orgulho, como se precisasse cumprir com a palavra, só não joga isso na cara dela, pelo amor de Deus.
– Ah, não sei, eu chamei ela de um negócio pesado, acho que ela nunca mais vai olhar na minha cara. Que droga, porque as coisas não continuaram bem depois do abraço? – Hian se levantou e tocou-lhe no ombro – Eu fiquei nervoso assim – estalou os dedos – do nada, mas é porque aquilo era tipo uma das melhores coisas que já havia me acontecido e quando ela disse que não podia, eu não sei o que aconteceu comigo… – encarava o chão, o corpo já não estava agitado e falava de modo mais calmo – frustração, cara, acho que nunca tinha lidado com isso, tenho que aprender…
– Hum, lido com isso já tem um tempo e até hoje não aprendi a me controlar, não é tão fácil assim como está imaginando. É o que eu te disse, acontece, cara. Mas repito, se eu fosse você, tentaria conversar com ela mais uma vez, quem sabe? – Oscar o encarou.
– Talvez, preciso pensar. Vai dormir na Maria hoje? – Hian fez que sim com a cabeça – quer ir lá pra casa matar o tempo? Hum, por falar nela…por favor, não fala nada, se ela perguntar conta por cima, mas o negócio do choro, isso não conta nem a pau, tá bom? – Hian o empurrou de leve nas costas para que começassem a andar.
– Ela é minha namorada, cara, tenho que contar – soltou finalmente a gargalhada que havia engolido mais cedo.
III
Os dois amigos ficaram no quarto de Oscar escutando discos de rock até meia noite, hora em que Hian se despediu. Oscar, que havia melhorado, mas ainda conservava um semblante de tristeza, reforçou o pedido para que não dissesse à Maria sobre o choro. Hian havia decidido não contar, mesmo assim tratou o pedido com indiferença, só para deixar ele com a pulga atrás da orelha.
Eram quatro quadras de uma subida exaustiva da casa de oscar até a janela de Maria. As pessoas naquela cidade costumavam dormir cedo, de modo que as casas já tinham todas as luzes desligadas e a rua estava, como sempre, deserta. Tentava andar sorrateiramente, mas havia esquecido o casaco em casa e tremia de frio, o que prejudicava sua concentração. Abraçou o próprio peito e apertou o passo, ansioso para se livrar daquela maldita brisa.
Só caminhou um pouco mais lento quando passou na frente da varanda de uma velhinha. Pelas janelas abertas, Hian conseguia ver as luzes da televisão ligada e ouvia as risadas escandalosas da mulher. Colocou-se nas sombras e passou bem devagar, procurando não despertar a sua curiosidade. Já estava na última quadra antes da janela de Maria. Quando se sentiu seguro, atiçou as pernas mais uma vez.
Avistou a baixa cerca da casa e já se sentiu mais aquecido só com a expectativa de logo mais estar no quarto de Maria e com ela em seus braços. Mirou a casa como um todo, não havia sinal de movimentação, depois olhou o celular para ver se existia algum aviso, a barra parecia limpa. Olhou para o lado esquerdo e depois para o lado direito, nesse ponto, atrás da moita onde na última vez em que estivera ali havia calçado o tênis, viu uma sombra estranha sendo refletida na calçada. Parecia se mover sem se dar conta de que sua projeção podia ser vista. Hian curvou-se um pouco para frente. Curioso, sentia a cabeça trabalhando para desvendar o que poderia ser.
– Que merda é essa…- cochichou.
Numa fração de segundo, imaginou que talvez fosse um cachorro ou um gato. Poderia ser também o reflexo de um dos ramos do arbusto que se movia de um jeito estranho por causa do vento ou um objeto qualquer, como uma sacola ou uma caixa. Aproximou-se da moita, já quase nela viu a sombra tomando forma, o que era um reflexo maciço de bordas vacilantes, gradualmente ganhou pernas e braços ao ponto de se estender até o muro da casa. Aquilo havia sido um homem agachado, e agora ele estava de pé.
Hian deu um passo para trás, mas esbarrou em alguma coisa. Já completamente desnorteado, sentindo o estômago na garganta, olhou de novo a moita, de lá saía Marcos, o irmão mais velho de Maria.
– Shhh… – fez Marcos tendo o dedo indicador na frente da boca – Fica calado, cala a boca, não faz barulho, moleque – sussurrou se aproximando. Atrás de Hian, estava Jorge, o outro irmão, que o agarrou pelo braço e o arrastou até um pouco mais adiante, de modo que não pudessem vê-los de dentro da casa de Maria. Um irmão olhava para o outro e chacoalhava a cabeça concordando com alguma coisa que Hian não poderia saber o que era. Eram grandes e fortes como o pai. O mais velho era notável na cidade por ser uma pessoa destemida, aventureira e perigosa.
– O que você ia fazer? – Marcos perguntou. Hian estava escorado no muro da casa vizinha sendo cercado, de forma bem justa, pelos dois brutamontes – e fala baixo, moleque, senão a gente vai… – Hian ficou em silêncio – ia fazer o quê, moleque?
– E-eu, precisava falar uma coisa com a Maria, ia ver se ela tava acordada.
Jorge não dizia nada, mas não tirava o olhar dele nem por um segundo e tinha sempre a mesma expressão séria como se fosse o segurança do presidente. Marcos sorriu debochando daquela resposta, escorou a mão no muro ao lado da cabeça de Hian.
– E ontem, veio falar um negócio com ela também?
– Ontem? – Marcos molhou os lábios e depois os mordeu, um dos seus trejeitos, costumava fazer isso quando queria se mostrar insatisfeito.
– Você perdeu, Hian, vamo, moleque, abre o jogo. Ia pular pra dentro e ficar de graça com nossa irmã, nas costas do meu pai, fala, não era isso? – falava quase no seu ouvido. Hian tentou pensar no que ia dizer, mas nesse meio tempo sentiu um soco na boca do estômago. Se curvou abrançando o abdômen, as pernas perderam a força, mas ele não cedeu e ficou de pé sentindo brevemente uma vontade de vomitar. Nunca havia apanhado. Para sua surpresa, depois de alguns segundos do choque, doía bem menos do que havia imaginado. De qualquer forma, achou melhor fingir uma dor maior do que a que sentia, talvez sentissem pena dele. Marcos o escorou no muro de novo, agora estava sério – vou perguntar de novo e a cada mentira você vai apanhar. E acredite em mim, você tem sorte, estamos sendo gentis porque você é namorado da nossa irmã, se fosse outro…você tava frito, não tem nem ideia – cerrou os olhos de um modo que Hian acreditou no que ele dizia, mesmo assim não se sentiu um sortudo – o que você ia fazer?
– Eu ia… – parou por um segundo – eu ia pular para dentro e encontrar Maria.
– Muito bem, muito bem – Jorge ainda mantinha aquela mesma cara assustadora com o olhar fixo. Hian não sabia de quem sentia mais medo – e ontem o que você fez?
– Isso…
– Isso, o quê? – disse enfaticamente – quero escutar você dizer, pra depois não falar que fomos injustos.
– Injusto? Como assim? O que vocês vão fazer? – Estava apavorado pela primeira vez até agora. Tentou sair do cerco, mas os dois o puxaram para trás e o encostaram no muro de novo. Ele bateu as costas e arfou – o que vocês vão fazer? Se tentarem me levar daqui, eu vou gritar.
– Se você gritar, eu te mato, moleque – Hian deu os ombros.
– Não vamos te tirar daqui, ainda não, mas vai sofrer algumas consequências, tem que sofrer e não gostamos de ser injustos, então responde a pergunta, por favor. Fala aí, ontem você fez o quê? – Jorge abriu a boca pela primeira vez.
– Sofrer as consequências? Vocês são doidos? Que isso? – tentou romper o cerco mais uma vez, o colocaram de volta com mais força, bateu a cabeça contra o muro e fechou os olhos sentindo-a arder – Tá bom, eu entrei aí e passei a noite com ela.
Hian viu que Marcos tirava de debaixo da camiseta um objeto preto, quase cilindrico e um pouco maior do que um palmo.
– Não podemos deixar marcas em você, pra Maria não saber, então vamos ter que usar isso – disse mostrando a ele um aparelho de choque, acionou um botãozinho na lateral do dispositivo – quando essa luz ficar vermelha, o choque vai ficar pronto, daí vamos te eletrocutar – falava com notável alegria. Já Hian mostrava-se incrédulo que aquilo realmente fosse acontecer – Não queremos que você pise nessa casa de novo, tá entendido? – Hian não escutou a pergunta, ainda estava processando aquele papo das marcas que eles não podiam deixar e o choque como solução.
– A Maria não pode saber? E vocês acham que não vou contar? Se encostarem essa droga em mim, é lógico que eu vou contar.
– Não vai, sabe porquê? – disse Marcos aproximando seu rosto e cerrando os olhos – Se você contar alguma coisa pra ela, vamos contar o que anda fazendo ao pai. Você sabe o que acontece com você e com a Maria se ele descobrir? – abriu os braços – pra falar a verdade, nem eu sei, mas coisa boa não é – o silêncio de Hian revelou a derrota. Ele mirou o aparelho de choque e sentiu medo como há tempos não sentia. Estava como quando uma montanha russa veio à cidade, escutava o próprio coração e a cada batida o sangue se chocava forte contra as pontas dos dedos e o topo da cabeça. Sentia vontade de implorar para que não fizessem aquilo, mas era sim uma pessoa orgulhosa, de modo que convenceu-se de que o choque seria como o soco, mais uma dor decepcionante.
– Você feriu a honra do nosso pai e a nossa, espero que entenda porque está sendo punido – disse Jorge afastando-se um pouco. Claro que Hian já não conseguia escutar nada do que falavam. Marcos disse mais alguma coisa antes que a maldita luz ficasse vermelha, mas todos os sons naquele momento estavam mais baixos do que as batidas do coração.
– Anda logo, então – Acreditava que teria um enfarto se fosse forçado a esperar mais um segundo naquela agonia. Marcos atendeu ao pedido. Puxou sua camiseta para cima e fez com que os ganchos de ferro do aparelho de choque o abraçassem nas costelas. Ficou com o botão pressionado por cinco segundos. O aparelho estalava freneticamente. O corpo de Hian se enrijeceu e por mais que ele sentisse uma vontade tremenda de gritar, só conseguia produzir um débil gemido digno de pena. Dessa vez ele havia conhecido a dor. Quando aquela tortura terminou, subitamente sentiu pavor de que aquilo pudesse acontecer de novo algum dia em sua vida. Tinha a respiração ofegante, já estava de quatro no chão e não disse nada, só queria ser deixado em paz.
– Nunca mais… – Marcos disse a ele antes de partir.
Hian colocou-se de pé, notou que cada um dos seus membros tremiam e tinha os pensamentos todos embaralhados. Só tinha uma vontade incontrolável de chegar em casa, mas tinha dificuldade até de discernir qual era o caminho. Tomou um rumo que lhe pareceu o mais correto naquele momento e seguiu andando como um morimbundo. Para a sua surpresa, rapidamente recobrava a normalidade da consciência e do corpo. Seu celular tocava. Com certeza era Maria, indignada pelo sumiço. Lamentou ter que conversar com ela naquele momento, não fazia ideia de que desculpa daria para furar com o compromisso. Atendeu e ao cumprimentá-la, percebeu que a voz saía trêmula da garganta.
– Que isso, está bem? Cadê você – sussurrava do outro lado da linha.
– Desculpa, não vou poder ir, esto-o-u…passando mal.
– O que você tem? Começou quando? Assim, do nada? Tá falando sério? – Hian sabia que sempre que ela fazia muitas perguntas era porque estava desconfiada de alguma coisa.
– Esto-o-u com…a garganta ruim. Sim, do nada, não está percebendo como minha voz está estranha? Minha garganta ficou péssima de uma hora para a outra, acho que minha imunidade baixou por causa das brigas com o padre – fez-se um silêncio torturante por alguns segundos – Maria?
– Estou pensando sobre isso…muito esquisito, Hian, muito esquisito mesmo – Hian foi pego por uma rajada de vento mais forte, que soprou no microfone do celular e chiou no ouvido de Maria – você está na rua? Claro que está, escutei o vento. Que merda é essa, Hian? O que você está fazendo?
– Eu estava no Oscar, estou voltando pra casa.
– Puta merda, que mentiroso, vem pra cá agora, quero te ver, nem que seja um pouquinho, só pra checar essa garganta sua – Hian gemeu e agora foi sua vez de ficar em silêncio – Hian?
– N-não vou. Não posso, estou doente, preciso ir pra casa…preciso dormir.
– Isso está muito esquisito, eu não acredito em você – Hian estava cansado, de verdade, de modo que resolveu encurtar aquela discussão, resolver tudo no dia seguinte. Mesmo que não estivesse realmente doente, havia levado um soco no estômago e um choque de sei lá quantos volts, portanto era real que precisava descansar.
– Se não acredita, então acho que essa conversa está terminada – disse já se sentindo mal. Maria desligou o telefone sem dizer mais nada. Sabia que seria uma tarefa árdua voltar às boas com ela. Odiou Marcos e Jorge durante todo o percurso de volta para seu quarto na igreja.
IV
Hian subiu os degraus até o quarto com duas ideias fixas em mente. Estava ansioso para encontrar a cama e descansar, por outro lado tinha medo de dormir e nunca mais acordar. Nunca havia levado um choque, logo não sabia ao certo quais reações poderia ter. Também notava uma dor persistente no alto da cabeça, onde a batera contra o muro. E se tivesse uma concussão? Sentia-se fadigado demais para checar a pupila no espelho, ver se tinha algum sintoma estranho e preocupante, de modo que decidiu contar com a sorte. Iria sim se deitar e só podia torcer para acordar inteiro no dia seguinte.
Chegou diante da porta e nem notou que a luz do quarto estava acesa, brilhando pelas frestras nas extremidades. Bateu a mão de qualquer jeito na porta e a jogou para trás, entrou e foi surpreendido ao ver o padre sentado sobre a cama, uma cena rara, talvez única. Ele tinha as mãos fechadas entre os joelhos e não fazia nada, parecia apenas esperar.
– Ah, meu Deus, me dá um tempo… – sussurrou ainda na soleira. O padre se levantou, tinha o ar grave. A atmosfera pesou sobre Hian prenunciando que notícias ruins estavam por vir – Que foi? – Sentiu-se acovardado por aquele sentimento. Não ousava entrar no quarto, queria distância do mensageiro.
– Você está bem? – O padre notava em Hian os efeitos daquela infeliz madrugada. Mantinha, como ele, uma distância conveniente.
– Tive uma noite difícil – disse com uma risada de desdém.
– O que aconteceu? – Hian chacoalhou a cabeça – Mas está bem, certo? Parece tão pálido, brigou com a Maria? Foi isso?
– Para com isso… – disse aborrecido – Por que está aqui?
– Ainda bem que eu esperei mais um pouco, achei que fosse dormir na Maria, mas… – o padre disse a si mesmo – passei o dia todo me perguntando o que fazer – ele encarou a madeira escura da mesinha ao seu lado, olhava cada objeto como se fosse um investigador procurando pistas, mas Hian sabia que ele dificilmente enxergava alguma coisa – sente-se, por favor – Hian negou – por favor, meu jovem, para de ser assim, vamos, sente-se – apontou para a cama – preciso te dizer algo e você não pode ficar aí, parado no pé da porta.
Com o caminhar pesado, Hian atendeu ao pedido. O padre se colocou no centro do quarto, estava frio, mas ele tinha a batina molhada de suor.
– Eu pensei muito na forma como iria te dizer isso e cheguei à conclusão de que devo começar afirmando que eu não sei onde sua mãe está. Mas recebi uma carta dela hoje, ou melhor, de uma jovem que parece estar morando com ela – Hian se colocou de pé num pulo – acalme-se, por favor.
– Uma carta? O que ela dizia? Ela perguntou por mim? – Pulou até o padre, que manteve-se fixo, mas assustado por causa daquele olhar ávido que Hian tinha – Quero ver a carta, cadê? Onde está? – O padre engasgou-se em respostas. Olhava-o freneticamente, procurando em suas mãos e bolsos um pedaço de papel – Onde está?
– E-eu… – Tentou falar, mas sentia-se ameaçado, de forma que teve que se afastar, deu um passo até o guarda roupas, onde se escorou. Hian não o seguiu, sentia o sangue fervendo nas veias e a ansiedade consumindo-lhe as entranhas, mesmo assim controlava-se da melhor forma possível – Me desculpe, eu não sabia se iria te dar essa notícia. – Abriu os braços. – Achei que só te causaria dor, então e-eu… – Hian se afastou, colocou-se no canto oposto do quarto, não encarava o padre Paulo, olhava o chão – eu queimei a carta, meu jovem, não posso te mostrar, mas não havia nada de mais nela, eu juro.
– Padres não juram! – Berrou. – Agora jure que não sabia onde minha mãe estava! – O padre se encolheu. – Vamos, agora é a hora. Não quer que eu confie em você? Já que acabou de jurar, jure de novo. Você me escondia alguma coisa sobre ela, não é verdade?
– Eu não sei onde ela está – tentava mostrar-se sereno – eu recebi uma carta, me desculpe por ter pensado em te esconder isso, mas eu não sei onde ela está. Meu jovem, me escute, você precisa se acalmar… – Hian deu um tapa num copo de vidro que estava sobre a mesa, que voou se estilhaçando pelo chão.
– Mentira – agora tinha a voz seca e os olhos severos – você não queria que eu visse a carta, por isso queimou. Você sempre fez pouco caso da minha inteligência. Seu olhar é óbvio, eu só não entendo porquê faz isso, não quero acreditar que você seja culpado de alguma coisa, mas… – seus olhos encheram-se de lágrimas – mas é tão claro pra mim que você esconde segredos. Por que faz isso?
– Eu não tenho escolha – tinha na voz uma melancolia que Hian nunca havia visto. Ficaram em silêncio por alguns segundos, mas que pareceram como horas. Ele se lembrou da porta, da sua resolução e dos planos que tinha de desvendar aquele mistério, todas essas ideias borbulhavam em sua mente enquanto ele encarava as feições tristes do padre. Mas o peso do ambiente causou-lhe uma tremenda fadiga e sentiu uma súbita vontade de desistir de tudo.
– Vou embora, não dá mais pra viver com você. Não dá pra ficar aqui sabendo que você mente pra mim. Preciso encontrar ela, se não quer me ajudar, eu… – viu o olhar de espanto que o padre dirigiu a ele e calou-se.
– Não, você não pode fazer isso. Por favor, me escute, você não vai conseguir encontrar sua mãe neste mundo, não faz sentido sair por aí procurando por ela – disse encurtando a distância entre os dois, colocando-se no centro do quarto.
– Eu não acredito em mais nada do que você fala – a feição do padre se deformou – você mente pra mim descaradamente, e ainda acredita que eu vou confiar quando me diz que ela está morta?
– Eu não disse isso! – Esbravejou – Não está morta, meu jovem, não está, não pode estar – comoveu-se a ponto de surpreender Hian – mas está muito doente e é isso que a carta dizia. Mu-muito doente, Hian – os olhos dele derramaram lágrimas, ele procurou a cama para se sentar.
Hian colocou-se de frente para ele e o agarrou pelos ombros.
– Como sabe disso? Onde ela está? – O sacudiu. O sangue fervente já não podia ser controlado. Sentia que sua visão o deixava e uma dor crescente aparecia na nuca, chacoalhou sua própria cabeça tentando resguardar os sentidos – como sabe disso? – Berrou de novo.
– Eu já disse! A carta…
– Quem enviou? Onde ela está? Me fala! – Foi empurrado para trás, quietou-se ofegante.
– Você precisa se acalmar, por favor. Eu te prometo, vou tentar…mas me dê algum tempo. Fique calmo – Hian nem escutou aos seus protestos, virou-se e deixou o quarto. Tinha passos firmes e rápidos – Aonde está indo? Volte aqui, não faça nada idiota, Hian! – O padre gritou, mas ele andava rápido, de modo que num instante as advertências do padre ficaram para trás.
Atravessou o portal que dava ao subsolo da igreja e se dirigiu até a porta de ferro azul. Com toda sua força a chutou uma, duas, três vezes. O estrondo era enorme. A cada chute, Hian era jogado para trás pela sua própria força, mas a porta não se movia nem uma polegada. A poeira acumulada nas ranhuras dos seus desenhos explodiam no ar enquanto Hian continuava a chutar. Quando notou que os chutes não estavam adiantando nada, num ato de desespero começou a socá-la e depois jogou-se contra ela. Mirava o ombro contra a porta e destemidamente pulava em sua direção. A porta o jogava para trás e ele caia batendo as costas na parede oposta. Já completamente ofegante, com as mãos machucadas e a dor na nuca mais forte do que nunca, foi abraçado pelo padre.
– Acalme-se, ela viu seu desespero, vamos ser puxados, Hian, vamos ser puxados, acalme-se… – disse com olhos esperançosos e uma voz trêmula.