I
Hian sentiu o abraço do padre. Ainda mirava a porta e respirava poeira. Tentou afastá-lo com um empurrão, mas as mãos atravessaram-o no peito.
O padre afastou-se um passo.
– Espere por mim, não faça nada idiota, por favor.
Hian tentou tocá-lo mais uma vez, mas percebeu-se disforme. Sua silhueta alongava-se para dentro da porta. Numa fração de segundo, havia entrado. A consciência percebeu um altar e em cima deste uma luz e era para lá que o corpo escoava.
Formou-se de novo sentado numa cadeira de balanço na varanda de uma casa de campo. Não havia ninguém, só o pasto se alongando horizonte afora sob o céu alaranjado no final da tarde. Para não dizer que estava completamente sozinho, um cachorro soltou um latido grave em sua direção antes de voltar a morder algo que parecia o pneu de um trator.
Hian olhou as mãos. Fechou e abriu os dedos. À sua direta uma porta gemeu preguiçosamente. Uma jovem mulher de cabelos nos ombros e olhar triste atravessou o portal e ficou a olhá-lo. Carregava um copo com água na frente dos seios. Hian notou-se incrivelmente sedento, de tal forma que estendeu a mão em direção ao copo. Ela o entregou e esperou até que ele tivesse terminado.
– O que é isto? – Hian perguntou devolvendo o copo.
– Outra dimensão.
Ela fez a porta gemer mais uma vez e entrou na casa.
Sozinho de novo, notou que o dia estava quente, tinha a camisa molhada de suor.
Tirou do bolso da calça a carteira de cigarros e acendeu um. Não ventava. As folhas das árvores contorcidas no pasto não se mexiam. Tudo parecia estático, só o cachorro chacoalhava o pneu na mandíbula. Encarou a porta imaginando o que encontraria do outro lado. Deu uma tragada no cigarro, mas o calor fazia seus pulmões arderem. Tossiu e tentou mais uma vez. Fez careta ao puxar a fumaça e a soltou com alívio.
– Até agora não chegou? – sussurrou olhando a brasa desintegrar o cigarro.
Enxugou a testa com as mãos. Levantou-se, desceu os três degraus para fora e jogou o cigarro na terra. Hian notou que no céu, um pouco acima das árvores, brilhava não um sol, mas dois.
– Que porra é essa?
O cachorro rosnou e avançou em sua direção. Hian correu para a porta e tentou abri-la. Girava a maçaneta e empurrava a porta, mas ela não cedia. Escutou o cachorro se aproximando. Suas garras riscavam a terra seca.
– Socorro!
– Hana! – Gritou o padre ao lado de Hian.
A cachorra derrapou levantando poeira. Tropeçou a caiu de lado nos degraus. Levantou-se de cabeça baixa, pareceu demorar um segundo para mudar de postura até que tirou a língua para fora e abanando o rabo foi fazer festinha nas pernas do padre.
Hian tinha a mão no peito e o rosto deformado.
– Hana? – o padre concordou acariciando-a na cabeça – Como assim? De onde você…? Isso é real?
O padre estendeu a mão pedindo calma.
– Vamos entrar, meu Deus que calor e que sede.
– Está tranca… – o padre puxou a porta abrindo-a. Deu passagem a Hian e depois entrou.
A mulher de olhos triste estava esperando de pé no centro da sala com um copo de água. O padre aceitou com um sorriso. Depois de beber, devolveu o copo e agradeceu. A mulher atravessou uma cortina de conchinhas que farfalharam como um chocalho e saiu do cômodo. Uma garotinha magricela abraçada aos próprios joelhos assistia à televisão sentada no chão sobre um tapete de chochê. Hian nunca havia assistido àquele desenho.
O padre apontou uma poltrona à Hian, que sentou-se sem reclamar. A televisão parecia estar no mudo e a garotinha, bem perto, não tirava os olhos do desenho. O padre ficou um tempo a observá-la. Quando a mulher voltou à sala, carregava uma chaleira.
– Já, já, Paulo – disse antes de se enfiar num corredor tão escuro que Hian nem notara que estava ali, ao lado da cortina de conchinhas.
Um gemido assustador chegou-lhe daquele corredor. O coração de Hian estremeu no mesmo instante. Sabia muito bem quem era aquela mulher em agonia. Cobriu os olhos com as mãos e sentiu que o padre o afagava no ombro.
– A Hana quase te pegou, não foi? – Escutou a voz rouca da garotinha. Ela falava sem olhá-lo – Se não fosse o Paulo, ela ia tirar um pedação da sua coxa. Eu já vi ela fazer isso. Você é burro.
– Shhh… – fez o padre a Hian.
– Shhh?
– É só uma criança.
– Seu rabo que sou só uma criança! – Berrou a garotinha.
– Hazel! – Ela estalou a língua em deboche e voltou ao desenho.
– E diziam que eu era insolente… – sussurrou Hian.
A mulher voltou de mãos vazias.
– Eu disse que vocês haviam chegado. Ela me pediu para informá-los…o motivo do chamado.
– O garoto estava surtando, ela precisava trazê-lo aqui, eu já havia dito um milhão de vezes.
– Não é sobre isso – ela apontou para duas mochilas num canto, ao lado da televisão – Hazel e eu vamos embora, esse é o desejo dela.
– Mas vocês não podem ficar lá.
– Não ficaremos. Vamos para o norte e vamos voltar de lá – o padre concordou.
– É um bom plano…de fato é um bom plano, eu já havia dito a ela que ficar aqui era uma sentença de morte.
A mulher desviou o olhar.
– Tínhamos esperança.
– Eu sei… – disse o padre aproximando-se da jovem mulher – ela vai, pelo menos, deixar que a vejamos, não é? Ela não vai fazer isso com o Hian – o padre apontou para ele, que tentava acompanhar o que diziam, mas nada parecia fazer sentido.
– Você sabe como ela é. Não queria, mas eu insisti.
– E como ela está? – ela se afastou dele. Colocou-se de lado para a cortina com conchinhas e começou a brincar com uma delas.
– Temos que ir rápido – ela levantou os ombros – pode ser a qualquer momento.
– Ela fede – disse Hazel. Hian a encarou furioso.
– Os nódulos estouraram e o pus derramou nos lençois. O cheiro ficou quase insuportável.
– O-o que aconteceu? – Hian perguntou com os olhos cheios de lágrimas – o que está acontecendo?
– Ah, não acredito que ele vai chorar. Depois eu que sou a criancinha – Hian avançou contra ela, caiu por cima e tentou esbofeteá-la, mas ela era mais forte do que ele havia imaginado, de modo que foi agarrado pelos punhos tendo os joelhos ponteagudos dela contra a barriga tirando-lhe o fôlego. Sentiu um calor estranho onde ela o tocava.
– Hazel, não! – gritou o padre agarrando Hian pela cintura e jogando-o novamente na poltrona – Que droga, parem com isso. Vocês são irmãos!
– O quê? – Hian berrou.
– Babaca, eu poderia ter te matado…
– Irmãos? – Hian perguntou incrédulo – então como ela tem coragem de falar da mãe desse jeito?
– Ela fede, seu desgraçado. Não estou falando nenhuma mentira. Ela fede sim, seu burro.
Hian tentou chutá-la, ela se desviou. Hian não acreditou nos olhos quando viu que a mão de Hazel havia pegado fogo instantaneamente.
– Você quer torrar? Quer?
– Não! – A jovem mulher gritou. A mão de Hazel se apagou. Um cheiro estranho de cinzas tomou conta do lugar.
Hazel levantou-se e correu para fora da casa.
– Graças a Deus… – disse o padre ofegante.
II
Na cozinha, ao redor de uma mesa, o padre tentava acalmar Hian, que sentia-se sufocado pelo calor. Primeiro ele havia tentado disparar para o quarto da mãe, depois gritara por respostas até que, exausto, havia se sentado no chão, de onde fora arrastado através da cortina de conchinhas. A mulher dizia que aquele era o lugar mais arejado da casa. O padre então esforçou-se para colocá-lo sentado sobre uma cadeira e forçaram-o a beber água.
– Por que não me deixam vê-la?
– Eu quero que você a veja. Só que você precisa estar preparado, caso contrário… ela está muito doente, você não pode entrar naquele quarto deste jeito. A verdade é que ainda precisamos dela, então temos que ter cuidado.
– A menina disse que ela fede, você a trata como um objeto e você… – olhou para a mulher – cuida dela, mas nem parece se comover – Hian disse com desgosto.
– Nos acostumamos com a morte – ela respondeu. Estava de braços cruzados e encostada numa bancada.
– Ela vai morrer? Você tem certeza disso? – ela disse que sim – Como pode ter certeza? Onde está o médico? Porque ela não está num hospital?
– Acalme-se – o padre tocou-o no ombro.
– Ela não duraria um dia em um hospital – disse a mulher. Continuou ao ver o brilho de curiosidade nos olhos dele – Estão infestados de pessoas doentes há anos. Todos morrem, não são mais hospitais, são necrotérios. É a peste. Às vezes, quando o clima está mais frio, ela dá trégua, mas no calor, como nesta época do ano, é impossível não se acostumar com a morte.
– Peste?
– Sim. É por isso que ela se refugiou em nosso mundo – disse o padre.
Hian secou as mãos na calça e deu um gole na água.
– E porque voltou?
Hazel entrou na cozinha. Havia conseguido pegar a última frase e como se estivesse escutanto a conversa há algum tempo, disse:
– É, por que ela voltou? – Hian a encarou assustado. Ela fingiu não ver o olhar.
Hazel pegou um copo, foi até a geladeira e o enchou com leite. Segurava-o por baixo e de alguma forma fazia com que o leite soprasse fumaça. Quando satisfeita, colocou chocolate em pó e depois mexeu a mistura com o dedo, chupando-o depois para limpá-lo. Todos a observavam.
O padre limpou a garganta antes de responder:
– Não era o lugar dela, não queria ficar lá – levantou os ombros – eu até tentei segurá-la, mas foi impossível. Sua mãe é especial, ela faz parte de um grupo muito raro de pessoas que conseguem usar os portais. É por isso que disse que ainda precisamos dela. E é por isso que nunca fez sentido te dizer onde ela estava.
– É por isso que precisamos nos apressar. Se ela morrer, vocês estão presos aqui e nós também.
– Dê mais um pouco de tempo para ele, por favor.
Hian encarou Hazel. Ela bebia o chocolate ao leite e tamborilava os dedos na coxa magricela.
– Se ela sempre pôde me trazer até aqui, porque me deixou sozinho?
– Você queria vir pra cá? – Hazel disse com um sorriso sarcástico.
– A peste. Agora mesmo estamos correndo enorme risco. Não só de nos infectarmos, mas também de levarmos a morte para nossa cidade.
– Mesmo assim… – Hian chacoalhou a cabeça. Olhou o padre sentado do outro lado da mesa, a mulher escorada com a feição séria e Hazel brincando com o chocolate – mesmo assim não faz sentido. Porque ela me deixou para viver aqui? Ela já havia saído deste lugar, porque voltar e ainda por cima me abandonar? Ela só queria me deixar? É isso? Porque não deixou ela também? – apontou para Hazel.
– Hazel não pode viver no nosso mundo. Você viu o que ela pode fazer. Existem pessoas que controlam esse tipo de coisa lá.
– Ei, você – Hian a chamou. Ela levantou os olhos desafiadores para ele – como você faz isso? – Hazel levantou os ombros.
– É filha de dois mundos. – Respondeu a mulher – mãe daqui e o pai de lá. A existência dela não obedece às regras, nem o seu corpo…
– E nem ela… – disse o padre sorrindo. Hazel sorriu como se estivesse satisfeita pelo comentário – o fato é que Hazel será caçada no nosso mundo. Aqui eles não conseguem localizá-la. Lá isso é possível. Por isso que elas vão entrar na nossa dimensão passageiramente. Vamos sair pelo nosso portal, arrumar as malas e viajar para o norte, onde encontraremos outro portal que as colocará de volta nesse mundo numa outra cidade, num outro país, livre desta peste.
– Precisamos sair daqui antes que ela se vá…
– Você está pronto? – perguntou o padre.
Por um segundo, Hian notou um ar de constrangimento em Hazel, que logo se dissipou. Manteve-se ereta e altiva como sempre.
Independente de quanto tempo passasse, não poderia estar pronto para o que estava por vir, de tal forma que sem dizer uma palavra, colocou-se de pé. Atravessaram a cortina de conchinhas e viraram no corredor escuro. Ali já era notável o cheiro de morte do qual Hazel falava com tanto ódio. Tentavam disfarçá-lo com álcool e desinfetantes, mas não conseguiam. Os aromas não se misturavam. O cheiro de carne podre, pus e infecção era evidente.
Diante da porta do quarto, Hian travou. Havia estado determinado, mas agora as mãos tremiam. O padre o incentivava a girar a maçaneta, mas sentia-se aterrorizado pela expectativa do que encontraria ali dentro.
Elisa, dentro do quarto, gemia cada vez mais alto palavras que Hian não conseguia distinguir. Era como se ela tivesse notado a hesitação de Hian e o chamasse para dentro de uma vez por todas. O padre tomou a frente, abriu a porta e entrou. Hian cruzou a soleira mirando os próprios pés. Tinha vontade de se colocar atrás do padre e, num primeiro momento, observar tudo dali. Mas consciente dessa vontade e da covardia que ela representava, forçou-se à bravura de colocar-se no centro do cômodo e levantar a cabeça.
Estavam na penumbra. As janelas estavam fechadas e as cortinas cerradas. Na cama encostada na parede, Elisa estava deitada, tinha os olhos abertos e atentos sobre ele. Estava coberta por uma escura manta, de modo que qualquer macha de pus ou sangue passava despercebida. Só a cabeça da mulher estava de fora. Ela tinha olhos vermelhos e inchados, a testa e o couro cabeludo molhados de suor e os lábios rachados com coágulos de sangue se formando ao redor da boca. A pele não tinha cor alguma.
– Eu estava te escutando. – ela disse baixinho, Hian teve que se aproximar.
O terror da cena havia passado. A morte ali era clara, mas nem de longe estava tão feia quanto havia imaginado. Agora sentia-se somente confuso. O que dizer à mãe que não via há onze anos? Ainda mais neste momento, em que todos estavam conformados que nas próximas horas ela estaria morta. Ao pensar sobre isso, ficou indignado. Ele não estava conformado, porque só agora ele a reencontrou? E ainda por cima daquele jeito, não era justo.
– Porque não ficou lá, comigo? – ele perguntou. Estava perto da cama, mas de pé, olhando de cima para baixo, com a feição séria e os lábios apertados.
– Hazel – Elisa respondeu com esforço.
– Eu também sou seu filho.
– Vo-cê te… – soltou uma tosse fraca e puxou o ar para os pulmões com os olhos arregalados. Hian assustou-se, nunca havia visto a morte, então imaginou-se diante dela naquele momento. Ficou aliviado quanto ela recobrou a postura – teve uma vida melhor do que ela.
– Largado para trás, sozinho? Essa é a vida melhor? – ela acenou que sim – você nem sabe como foi minha vida, não estava lá – a mulher esboçou um sorriso.
– Todos os meus filhos…fogo nas veias.
– É o seu sangue. – Disse o padre aproximando-se com um sorriso. O bom humor dele naquela situação incomodou Hian, que ajoelhou-se ao lado da mulher e impaciente, disse:
– A filha que você escolheu, vai te deixar sozinha para morrer. Eu não vou embora, vou ficar aqui. Vamos procurar um médico, trazer ele aqui, ainda deve existir um jeito. Você nem está tão ruim. – Tentou sorrir ao dizer a última frase.
Elisa acenou que não.
– Isso está fora de cogitação, Hian – o padre disse tentando tocá-lo, mas foi interceptado por um tapa.
– Eu não vou te abandonar! – ele gritou. Elisa ficou agitada na cama.
– Pelo amor de Deus, não incomode sua mãe desse jeito.
O padre levantou-o pelo braço e afastou-o da cama. A mulher tirou o braço para fora da manta gesticulando para que parassem. Hian ficou chocado com a visão daquele braço. As veias estavam todas estouradas e úlceras adentravam a carne podre. As unhas estavam amareladas, finas e caindo dos dedos. Era um braço morto e fedia como tal.
Ao encará-la, Hian percebeu que os olhos pulsavam e perdiam a cor. Ela se esforçava para falar alguma coisa. O padre também percebeu, de modo que os dois se jogaram de joelhos ao lado dela.
Com esforço, ela dobrou o braço até que a ponta dos dedos encostassem no pescoço do filho. Hian ficou emocionado com aquele toque.
– Hazel…agora só tem você, por favor… – seus olhos miraram o padre depois de dizer isso e ficaram paralisados.
– Mãe? – Hian tentou chamá-la, mas ela parecia não escutar.
O padre levantou num pulo e agarrou Hian pelo braço.
– Precisamos ir, é o último suspiro dela. Está fazendo de tudo para se manter viva.
O padre arrastou Hian para fora do quarto, que andava olhando para trás vendo o peito da mãe inflar e murchar rapidamente. Sim, era isso mesmo, ela já estava morta, mas se agarrava aos últimos segundos de vida para tirá-los de lá.
-N-não – Hian disse choroso antes de atravessar a porta e sair no corredor escuro.
Na sala, as duas já estavam com as malas em mãos. O padre colocou Hazel de baixo de seus braços. A mulher de olhos tristes, constragida, abraçou um Hian completamente transtornado. Alheio à realidade que o cercava.
– Elisa! – gritou o padre.
– Tchau, mãe! – gritou Hazel ao notar que seu corpo desintegrava.