Capítulo 3

I

Antes de ir ao colégio, Maria entrou no quarto de Hian. Escancarou a porta com um tapa e ficou aflita ao ver que ele não estava. Na soleira investigou o cenário, viu os cacos de vidro no chão, a blusa de uniforme sobre o encosto da cadeira e o celular em cima da mesa.

Havia passado a madrugada inteira em claro, era sempre assim quando brigava com Hian. Ele era tão instável, sempre dizia que largaria tudo e iria embora sem rumo para procurar notícias da mãe. Maria vivia com medo de que em um dos seus muitos ataques de nervos, fosse embora e a largasse para trás.

Ali, parada na soleira, vendo aquele cenário, era claro que algo estava errado. Maria, de repende, sentiu-se estranha. Foi tomada por uma agonia profunda que só seria curada quando o encontrasse.

Desceu correndo os degraus da escada e foi até a casa do padre. A porta estava entreaberta, empurrou-a devagar.  O lugar estava tão vazio e estranho quanto o quarto de Hian. Na cozinha as panelas estavam no fogão abertas e jogadas de qualquer jeito. No quarto do Padre a cama estava intocada e o banheiro sem uma gota de umidade. O silêncio da igreja como um todo a incomodou de tal forma que sentiu vontade de chorar.

Lembrou-se da porta misteriosa, objeto de fixação de Hian, e sem saber exatamente o motivo, ficou cismada de que deveria vê-la. Atravessou o salão da igreja, foi aos fundos e desceu até o subsolo. Odiava aquele lugar. Uma vez Hian a levara ali, havia se sentido tão enjoada que não conseguira dar dois passos adiante. Mesmo que notasse em si a mesma agonia de antes, estava determinada a enfrentar aquele ambiente sujo, claustrofóbico e o pavor das aranhas que corriam pelos cantos. Correu até o final do corredor, percebeu-se ofegante, não por causa da corrida, mas sim por causa do medo que já estava sentindo desde que vira os cacos de vidro. Pensamentos ruins e premonições catastróficas brotaram em sua mente.

A porta estava lá, trancada e imutável, mas na parede oposta a ela, Maria notou duas estranhas manchas, como se a parede tivesse sido queimada. Ficou a analisar aquela silhueta e conhecendo bem as formas do namorado e as posições com que parava o corpo, numa fração de segundo teve a certeza de que uma daquelas imagens era Hian. Colocou a palma da mão sobre a mancha.

– Hian – sussurrou.

Olhou para porta.

– Vou precisar de ajuda – disse antes de sair dali.

Maria correu até o colégio. Ainda estava cedo, haviam acabado de abrir os portões, de modo que ela se colocou a esperar sozinha no pátio. Dois minutos depois, Oscar entrava. Ele a olhou com espanto.

– Vem comigo! – Maria disse pegando-o pelo punho. Ele arrancou o braço das mãos dela.

– Ei, o que é isso? Temos aula, o que aconteceu?

– Dane-se a aula. O Hian sumiu e tem uma mancha esquisita naquela porta. A gente precisa abrir ela.

– Que porta? E cadê sua mochila? – Maria tateou os ombros.

– Não sei, acho que está na igreja, tanto faz – ela suspirou – a porta que ele vive comentando, a da igreja, que está sempre trancada no subsolo – Oscar acenou, dizendo que havia se lembrado da tal porta – Hian sumiu e o padre também. Eu não sei o porquê, mas acho que aquela porta tem alguma coisa a ver com isso. A gente precisa arrombar ela, achar a chave, sei lá, fazer alguma coisa.

– Ele ficou comigo ontem até umas meia noite, eu acho. Pra você considerar uma pessoa desaparecida, tem que passar no mínimo quarenta e oito horas. Não se passou nem um dia. Ele vai aparecer, relaxa – Maria apertou-lhe no braço – Ai, o que é isso, está doida?

– Você vai comigo até a igreja, nem que eu tenha que te arrastar até lá, está me escutando? – disse furiosa. Para a sua surpresa, Oscar desviou o olhar, mirou algum ponto no portão. Ela olhou para trás e viu que Luiza se aproximava distraída. Mesmo que estivesse calor aquele dia, ela colocava uma blusa de frio. Maria reparou que ela tinha marcas nos braços, manchas vermelhas e roxas, eram machucados e estavam bem recentes. Um pouco chocada, afrouxou os dedos do braço de Oscar.

– Você viu? – ele sussurrou. Maria acenou que sim.

Luiza alcançou a dupla e acendeu um cigarro.

– Quero conversar com você – ela disse a Oscar.

– Agora não dá! – disse Maria.

Oscar deu um passo à frente – Dá sim!

– Hian está sumido – disse Maria espalmando as mãos, mostrando-se incrédula diante do desinteresse do amigo – será que você não entendeu a gravidade da situação? – Oscar balançou a cabeça.

– Eu já disse, ele ainda não pode ser considerado desaparecido. Você está muito apavorada. Vamos assistir à aula e depois vou à igreja com você. Que tal? – disse se afastando com Luiza.

– Não – gritou para que ele pudesse ouvir, uma vez que já estava distante – Não vou ficar aqui esperando. Se você não está nem aí, eu estou… – saiu do pátio e tomou o rumo de casa.

Correu para casa, o vento fazia com que seus cabelos subissem, driblava os pedestres, desviava-se dos cachorros e das bicicletas, reparava que os velhinhos nas portas das casas riam do seu desespero, passou pela cerca de casa, foi até os fundos e chutou a porta onde o pai guardava as ferragens. Antes de começar a procurar, teve que recuperar o fôlego. Sentia-se tonta, agarrou a maçaneta com medo de cair.

Depois que se recuperou revirou a caixa de ferragens buscando um pé de cabra. Já tinha visto o pai com um, não se lembrava exatamente de como era o formato, mas tinha certeza que o identificaria quando o visse. Também não fazia ideia de como usar, mas daria um jeito quando a hora chegasse. Desleixadamente, enfiava a mão na caixa. Uma navalha abriu um corte em seu dedo indicador, Maria gemeu de dor e levou a ferida à boca.

– Ai, que droga – sussurrou.

– Que foi? – Marcos perguntou. Aproximava-se pelas suas costas.

Maria odiava abrir o jogo sobre qualquer coisa com os irmãos, principalmente com aquele, então o ignorou.

Marcos a segurou pelo punho – Ei, você tá esquisita. Que foi, não tinha que tá no colégio?

– Me solta – tentou se livrar – que saco, já disse pra me soltar.

– Só se me responder o que você quer. Tá igual um louco mexendo nesses ferros aí e acha que vou virar as costas e ir embora?

– Quero o pé de cabra, cadê? – forçou o braço para baixo subitamente conseguindo se livrar. Marcos ficou a olhá-la, parecia desconfiado. Girou a cabeça para um lado e depois para o outro. Ainda em silêncio apontou para um longo ferro retorcido pendurado na parede por um prego. Maria avançou, o agarrou e tentou sair, mas foi cercada – Sai da minha frente.

– Olha como fala comigo. Quer isso pra quê? Responde logo ou grito o pai.

– N-não, por favor – disse apavorada – O Hian sumiu, acho que está trancado. Preciso arrombar uma porta.

– Sumiu? – perguntou com os olhos arregalados.

– Sim…por quê? – Maria não soube o motivo de ter perguntado, alguma coisa no olhar do irmão assustou-a de uma forma que a pergunta se fez naturalmente. Chegou até a se arrepender, sentindo que havia prolongado aquela conversa agoniante.

– Nada – disse abrindo os braços – trancado atrás de uma porta…acho que não. Deve ter ido embora. Melhor assim.

– Cala a boca – tentou controlar um berro – me deixa passar, pelo amor de Deus, anda logo.

– Não vou te deixar arrombar uma porta na igreja, Maria. Tá ficando louca? Coloca essa droga aí dentro logo e vai pro colégio antes que eu chame o pai – disse com a feição deformada. Molhava os lábios.

Quando Maria percebeu o que havia feito, já tinha chutado Marcos entre as pernas, ele se ajoelhava no chão e segurava os testículos. Ainda tentou agarrá-la, mas ela se esquivou para um lado e passou voando pelo jardim. Nina observava a cena deitada, com as duas orelhas ponteagudas em pé.

Todo o fôlego havia acabado na corrida para casa. Voltando à igreja corria meia quadra e andava exaurida a outra metade. Tentava de novo, corria meia quadra, andava o restante bufando. Foi assim até chegar. Com as vistas turvas e de língua para fora, sentindo o pulmão na garganta, empurrou a porta que dava ao salão. Com dificuldade, avistou do outro lado, em cima do altar, três figuras: uma garotinha, uma jovem, o padre Paulo e Hian.

Notou que a agonia sumia, mas no seu lugar veio-lhe o ódio. Estava curvada com as mãos sobre os joelhos, havia soltado o pé de cabra no chão e só respirava. O estrondo da porta se abrindo havia chamado atenção, de modo que todos a olhavam.

Hian descia do altar e caminhava rapidamente em sua direção. Ao vê-lo mais de perto, ela percebeu que ele estava pálido e com uma expressão que nunca antes vira.

– O que é isso? – sussurrou.

Ao encontrá-la, Hian se manteve ereto demonstrando uma indiferença arrasadora.

– T-tentei te ligar a madrugada inteira, fui até o seu quarto e você não estava, tem um copo quebrado lá e tem uma mancha sua na frente daquela porta, não adianta falar que foi para o colégio, seu uniforme está no quarto, o Oscar também não tinha notícias de você e porque foi tão grosso comigo ontem? O que está acontecendo? – disse se endireitando. Ainda tinha mais coisas que queria jogar para fora, mas vendo aquele olhar desinteressado, ficou paralizada.

– Desculpa, não é uma boa hora, não posso conversar agora.

– Como assim?

– Não posso explicar, você…precisa voltar pro colégio, acho que ainda dá tempo ou…sei lá, ir pra casa.

– Hian, pelo amor de Deus! Sei lá? Ir pra casa? O que está acontecendo com você, conversa comigo! – ela notou que o padre havia descido do altar e andava em sua direção – padre, por favor, onde vocês estavam? – berrou, mas logo sentiu o corpo gelar notando a mesma expressão fria nos olhos dele – gente, por favor, o que está acontecendo? – disse com a voz já inaudível.

– Maria… – disse o padre de forma solene – não podemos te receber agora. Você precisa ir.

– Tem certeza disso? – ela perguntou a Hian, que acenou dizendo que sim – que droga, você é um desgraçado. Não me procure nunca mais – disse com as mãos trêmulas e um sorriso incrédulo.

Antes de se virar mirou as outras duas figuras no altar. Uma era um pouco mais velha do que uma criança. A outra era mais velha, com os cabelos acima dos ombros e olhos tristes, de uma melancolia raramente vista.

Maria virou-se e deixou a igreja largando o pé de cabra para trás.