Capítulo 1

I

Na madrugada, Hian caminhava preocupado por uma rua deserta. Tinha as mãos no bolso e a cabeça enfiada dentro das golas de um casaco. Andava emborcado, em parte para se esconder e em parte para se proteger daquela brisa que soprava de tempos em tempos. Descia a rua pelas sombras e evitava também os barulhos desviando-se das folhas secas pela calçada. Não era tão tarde, de modo que as pessoas naquelas casas poderiam estar acordadas e qualquer um que colocasse a cabeça para fora da janela e o avistasse seria um problema.

Parou numa esquina, olhou para um lado e depois para o outro. Encostou a mão numa cerca enferrujada e pulou para dentro da varanda de uma casa. Um cachorrinho veio saudá-lo, ele afagou o bichinho, que caiu de barriga para cima e língua para fora. Seguiu por um caminho de pedras até os fundos da casa, o cachorrinho mordiscava a barra da calça, mas era de um silêncio impressionante, como se já estivessem acostumados a esse ritual desde que o animal era só um filhote. Hian encontrou uma janela aberta e pulou para dentro, onde já caiu de joelhos num colchão macio.

— Que susto — essa frase foi sussurrada no ar. Ele sabia que era Maria, mas os olhos ainda não haviam se acostumado à escuridão — Ninguém te viu, né?

— Não, claro que não…acho que não — deixou o corpo cair de lado. Sentiu o calor de Maria diante dele. Ela conteve uma risadinha. Hian inclinou o rosto para frente apostando que ali encontraria os seus lábios, mas errou e acabou beijando os seus cabelos.

— Que bom — ela o apertou com os braços e as pernas e depois deu-lhe um beijo — fiquei te esperando hoje na aula — disse ainda com a boca bem perto da sua, ele sentiu o hálito de pasta de dente — posso saber o por que não foi, danadinho?

— E eu tenho que te dar satisfação? — Percebeu que ela cravava os dedos entre as suas costelas, teve cóssegas e soltou um gemido — Se me apertar desse jeito, vou acabar acordando seu pai.

— Larga de ser frouxo, não aguenta um apertãozinho? — ela fincou ainda mais forte as unhas nas costas de Hian, que dessa vez ficou imóvel — tá querendo se fazer de durão? — Beijou-o, mas só como uma desculpa para mordê-lo nos lábios. Dessa vez Hian não aguentou, afastou-a um pouco e ela se virou para rir. Ele a laçou pela cintura e puxou-a para perto do corpo, ela tentou sair, mas não conseguiu. Hian a segurou com uma das mãos e com a outra tirou o cabelo do caminho do pescoço, onde descontou a mordida. Maria soltou um gemido agudo e alto, que assustou a ambos. Ficaram imóveis, tentando escutar algum barulho dos quartos dos pais ou irmãos. — Meu deus, desculpa, amor — virou-se mais uma vez para Hian. Ele conseguia enxergá-la e como se a tivesse visto só agora, sorriu. — Que foi?

— É que demoro um pouco pra te ver — se beijaram outra vez — por causa da luz…

— E não se assusta? — Maria colocou-se dentro dos braços de Hian e encostou a cabeça em seu peito.

— Claro, nunca vi mais feia, mas, mesmo assim, te amo — levou uma cotovelada nas costelas — acho que vou embora, já apanhei demais por hoje.

— Se ficar, vai apanhar mais, mas se for embora, não precisa voltar nunca mais.

— Então diga que eu fico — Maria espirrou, pegou a mão de Hian e a usou para secar o nariz — Ah, não, que nojo — espirrou de novo e fez tudo exatamente igual — Ei, vai acordar seus pais desse jeito.

— O que você quer que eu faça? Não dá pra segurar espirro — Hian ficou com cara de deboche enquanto secava as costas das mãos no lençol — Você ainda não me respondeu, por que matou aula hoje? Tá de rolo por aí não, né?

— Estou sim, mas não foi por causa disso.

— Vai brincando, Hian…— Maria disse levantando a cabeça para encará-lo nos olhos. — Não vem não, viu. Agora fala logo por que não foi ao colégio, tá me matando de ansiedade.

— Você que não me deixa falar! — disse isso mais alto do que pretendia.

— Psiuu…— ficaram imóveis de novo, a casa ainda estava completamente silenciosa — Dessa vez eu achei que tinha escutado um barulho.

— Foi a Nina, lá fora — tinha os olhos arregalados e os ouvidos atentos — Se o seu José acorda, eu tenho que pular essa janela na hora e correr.

— E me deixar dormir sozinha?

— Claro, você nem se importa. Eu me arrisco quase todas as noites e você não está nem aí — Maria deu uma risada muda, colocou-se de joelhos e montou Hian.

— Não tem nem vergonha de dizer umas coisas dessas. Nem durmo quando você não está aqui — abaixou-se sobre ele, que a acariciou nas costas. Ainda sobre ele, colocou-se ereta mais uma vez — Agora me fala, pela milésima vez, por que não foi à aula? — disse com a voz manhosa deitando-se de novo sobre ele e dando-lhe um beijo no pescoço.

— Tive uma discussão com o padre antes da aula, fiquei nervoso e desviei o caminho — Maria fez uma cara de desaprovação e desmontou-se — não quer nem saber o motivo e já está me condenando?

— Quem disse que estou te condenando?

— Depois de dois anos de namoro, conheço cada uma das suas caras.

— Conhece essa? — levantou só um lado dos lábios, uma sobrancelha e mostrou a língua — Quer dizer que você é um babaca.

— Essa é uma das que você mais faz. Acho até que é a sua cara normal, não é?

— Vou acordar meu pai e dizer que você invadiu a casa e veio aqui me violentar, quer continuar com essa brincadeira? — disse sorrindo com malícia. Hian tocou-a no seio, mas recebeu um tapa na mão — agora não é hora pra isso, vamos, fala, por que brigou com o padre? — ele se virou para encarar o teto e repousou o braço sobre a testa — Hian, deixa de ser criança, conta o que aconteceu…— Maria o abraçou colocando metade do seu corpo sobre o dele — Às vezes eu vou te contar, viu, você fica igualzinho uma criança.

— É que você fica do lado dele sem nem saber a história.

— Meu Deus, não estou do lado de ninguém, só acho que… — Hian apertou os olhos — acho que ele é uma pessoa sensata e que ta-al-vez você não tenha entendido ele muito bem — ele franziu a testa e balançou a cabeça.

— Viu como pra você eu não o entendi muito bem. É sempre assim, eu não entendo o padre…eu não tenho sensibilidade… — fechou os olhos — vamos dormir.

— Não, amor, para com isso — Hian sentiu os lábios dela na bochecha — acorda, amor, vamos conversar — Maria suspirou — Vamos, Hian, deixa de ser essa criança esquentadinha — ele sentiu um beliscão nas costelas — Vou perder minha paciência — disse com uma voz ríspida que o fez abrir os olhos.

— Nossa, como você é enjoada.

– Então é assim que você quer me tratar? – ela se sentou olhando-o severamente.

– É assim mesmo.

– Então pode ir embora, Hian – Maria apontou para a janela.

– Você está falando sério? – ela se calou, mas ainda manteve o braço apontado para a janela – Maria, está falando sério, quer que eu vá embora? – ficou calada mais uma vez – se é assim, então eu vou – sentou-se, mas quando foi se levantar, ela o agarrou pela cintura.

– Nossa, como você é babaca.

– Foi você quem me pediu para ir – abriu os braços. Ela o empurrou de volta para cama, onde os dois caíram deitados.

– Já te disse mil vezes que não é por que te peço para ir embora que você deve ir, como você é burro.

– Burro?

– Sim, bastante. Se tivesse ido, não te veria nunca mais, teria me perdido pra sempre – sorriu se aconchegando mais uma vez em seu peito.

– É mesmo? – Compartilhou do seu sorriso.

– Talvez…mas agora é sério, vamos, fala o que foi que aconteceu entre você e o padre Paulo – perguntou levantando-se um pouco da cama e encarando-o. Sentiu uma brisa fria vinda da janela aberta por onde Hian havia entrado e estremeceu. Ele a abraçou.

– Hoje antes de ir para aula, apareceu um homem doente na igreja pedindo que o Padre rezasse para que ele fosse curado. Eu escutei o padre dizendo que atenderia ao pedido e ainda fez um discurso sobre a importância da fé na cura e esse tipo de coisa. Eu entrei no meio, disse que a cura vinha com um médico e um hospital, não era com orações. Ele deu aquele sorrisinho cínico pra mim enquanto o homem estava lá, mas depois se irritou, disse que eu não entendia nada e me passou um sermão, que pra falar a verdade eu nem prestei atenção. É sempre a mesma coisa, que os caminhos de Deus envolvem a todos até mesmo os médicos e que isso não muda nada, mas não entendo porque ele não aconselha os doentes a rezarem menos e a tratarem mais da saúde se os caminhos de Deus estão tão definidos – Maria gemeu – que foi?

– É que essa não é nova, certo?

– Não, não é, mas que escolha eu tenho? Ficar olhando ele mentir para as pessoas? Elas estão doentes, Maria, o que adianta rezar? – agitou-se na cama enquanto falava.

– Olha a irritação, amor, eu sei que não adianta nada, mas é que tem gente que também não tem mais nada pra fazer no hospital. Se o padre Paulo achou melhor confortar a pessoa e não falar na-da sobre um médico, ele tem os seus motivos. Você não confia nele? – Hian bufou.

– Mais ou menos…

– Mais ou menos? O homem te criou sem pedir nada em troca, como assim mais ou menos?

– Você não o conhece tão bem quanto eu. Ele tem os seus mistérios, quero dizer, acho que tem, às vezes ele é tão estranho – Maria franziu o cenho, ainda olhando para Hian fixamente – aquela maldita porta que está sempre trancada, aquilo me deixa fora do sério.

– De qualquer forma, eu não ficaria tão irritado com isso, ele nem deve se lembrar mais dessa discussão de vocês.

– Não estou mais irritado. Fiquei na hora, mas agora estou tran-qui-lo. – Sorriu. – como foi que eu tive a sorte de ter a garota mais bonita dessa cidade? – apertou a mão de Maria e a beijou.

– Ah é? E por acaso conhece todas para saber se sou a mais bonita?

– Acho que nós dois conhecemos… – tiveram que conter uma gargalhada.

– É verdade, pensando bem acho que conhecemos todo mundo por aqui mesmo. Mas um dia nós vamos sair daqui, Hian, pra acabar com essa mesmisse.

II

Hian dormiu mais do que deveria, acordou com o sol nascendo e o barulho de Seu José tomando café da manhã. Maria ainda estava mergulhada num sono profundo, o que era comum, normalmente ele saía pela janela e nem a acordava. Estava deitado de lado, com o braço esquerdo de baixo do corpo da namorada e a abraçava com o outro. O quarto começava a sair da penumbra por causa dos raios de sol alaranjados que entravam cortando a parede oposta na metade. Hian abriu os olhos, sentiu o cheiro dos cabelos de Maria e sorriu. Só quando tomou consciência de que estava atrasado para sair dali  que arregalou os olhos e puxou de uma só vez o braço preso. Maria caiu da cama. Num pulo colocou-se de pé completamente espantada. Hian não precisou dizer o que estava acontecendo, ela mesmo ouviu o pai na cozinha e apontou para a janela empurrando-o.

– Ei, filhota, que barulho foi esse? – a voz estrondosa do pai chegou até eles, logo escutaram também os seus passos. A casa era pequena, míseros oito passos daquelas pernas longas para percorrer da cozinha ao quarto.

Hian sentiu o corpo amolecer e um frio percorrer-lhe do dedão à garganta. Colocou-se de pé em cima da cama e levantou as mãos na frente do corpo, como quem se protege de um ataque. Uma fresta se abriu, mas antes que a porta fosse escancarada, Maria saltou e a segurou.

– O que é isso? – Seu josé perguntou nervoso.

– E-estou tro-trocando de roupa, p-pai. Que droga! Já disse que não pode sair abrindo a porta do quarto das pessoas assim – tinha a voz entrecortada e Hian via que seu rosto normalmente cor de bronze estava completamente vermelho.

– Mas já? Está muito cedo, só tem que ir pra escola daqui duas horas…e você nem tomou o seu banho – parado sobre a cama, Hian observava a cena. Maria lançou um olhar de ódio em sua direção e apontou furiosa para a janela.

– Não estava colocando o uniforme, pai. Que saco, tenho que dar satisfação de tudo? Eu estava tirando o pijama – fez alguns segundos de silêncio do outro lado, Hian abaixou-se para pegar o tênis – Tirando o pijama e colodando outra roupa para tomar café da manhã com o senhor – Hian se empoleirou na janela e mirou Maria que mandou-lhe um beijo e uma piscadela.

– Ah tá, mas por que tão cedo?

Hian pulou para o outro lado.

– Não consegui dormir, só isso.

Correu curvado pelos fundos da casa até o jardim. Logo foi abordado por Nina, afagou a cachorrinha mais uma vez e se despediu. Para sua sorte, a rua ainda estava deserta, então pulou a cerca, entrou atrás de uma moita e calçou o tênis. Saiu de lá sentindo-se livre do perigo, mesmo que o coração ainda estivesse acelerado. Recompôs a postura e seguiu em direção à igreja onde morava como se nada tivesse acontecido.

No caminho para casa indagou-se sobre a sorte e o que poderia ter acontecido caso Seu José, talvez o homem mais sistemático e conservador daquela cidade, o tivesse pego no quarto da filha com os dois completamente descabelados, ele sem o tênis e ela de pijamas. Não haveria desculpa que pudesse justificar aquela cena. Hian achava bem fácil imaginar o homem perdendo a cabeça e partindo para cima dele completamente descontrolado. Não gostava nem um pouco dessa ideia e o resultado inevitável disso seria ele levando uma surra, já que Seu José era, também, um dos homens mais robustos e fortes da cidade, mesmo com a idade já avançada. Hian desceu a rua agradecido por como as coisas se saíram. Logo chegou à igreja.

Entrou por uma portinha na lateral da igreja e subiu uma escada à sua esquerda que dava direto para o quarto. Abriu a porta e sentiu o cheiro do ranço daquele cômodo sem janelas que havia sido adaptado para servir de quarto. O lugar era sempre escuro e úmido, tudo piorava com o  hábito de Hian de colecionar velharias como discos de rock, vitrolas e livros empoeirados. Tinha ainda por cima a mania de deixá-los todos espalhados em cima da cama, de uma escrivaninha e de uma cadeira caindo aos pedaços. Qualquer pessoa que entrasse ali, sentiria algo de melancólico na aura daquele lugar. Mas Hian estava acostumado e até gostava de viver ali. Costumava dizer que o quarto de Maria não era aconchegante o suficiente e completamente sem personalidade, já ela odiava entrar no quarto dele, porque começava a espirrar instantaneamente.

Hian tirou a camiseta e jogou-se na cama para aproveitar mais uma hora de sono antes de ter que se aprontar para o colégio. Já havia matado aula no dia anterior, por causa da discussão com o padre Paulo. Apesar de não ser o aluno mais aplicado de todos, tinha o sonho de ser médico, então precisava estudar. Deitou com a barriga para baixo, com uma das pernas fora da cama e ainda de tênis. Teve um sono péssimo. Quase arrependeu-se de ter dormido, quando despertou uma hora depois, parecia mais cansado do que estivera. Esfregou os olhos, soltou um suspiro profundo, lembrou-se que dessa vez deveria sair pelos fundos para não correr risco de cruzar com o padre Paulo e foi se aprontar.

Conseguiu sair da igreja meia hora depois, estava de banho tomado, uniforme e mochila nas costas. Tomou a rua e a subiu, a escola ficava a quatro quadras de distância. Enquanto andava, tirou do bolso um maço de cigarros, pegou um e acendeu. Cumprimentou uma senhora que estava sentada na porta de casa e uma outra que varria a varanda. Desviou-se de um cachorro de rua com um pedaço de osso na boca e foi provocado por um rapaz mais velho que passava de bicicleta. Nenhum evento especial, era o que acontecia todas as manhãs, conhecia todas aquelas pessoas por nome havia muito tempo. Andava tranquilo com passos vacilantes e tragando o cigarro tendo de cor aquele cenário. Passou pelo posto de saúde, pela delegacia e, por fim, ao lado da prefeitura avistou o colégio. Apagou o cigarro e entrou. 

Foi o último a se colocar dentro da sala, no encalço da professora, uma senhorinha de cabelos brancos. Sentou-se atrás de Maria, que tentou fazer uma careta desaprovando o atraso, mas foi puxada por ele e recebeu um beijo na bochecha.

– Não acredito – ela sussurrou, a aula já começava – você veio fumando? – Hian abriu os braços.

– Qual o problema?

– O problema sou eu aguentando você tossindo a noite inteira no meu ouvido – deu-lhe as costas.

– Psssiu, foi só um, não mata ninguém – inclinou-se em direção a ela.

– Não quer ser médico? Deveria saber que mata sim – disse por cima do ombro.

– Quero sim…é que acho que nesse caso os benefícios compensam os riscos – ela virou o corpo para ele, tinha os olhos cerrados e o dedo indicador levantado.

– Uma tosse no meu ouvido, Hian, uma tosse e eu arranco essa carteira de cigarros de você e a jogo no lixo. Está me escutando? – a turma inteira escutou. A galera do fundão começou a fazer barulhos e a soltar gargalhadas.

– Pelo amor de Deus, vamos parar com isso e prestar atenção. Vocês não tem limites, já disse que vocês precisam de limites. Você aí, para de gritar igual a um animal, rapaz, que isso? Onde estão os limites? – reclamou a professora.

– Olha, o que é aquilo? – Hian apontou para Oscar, um jovem magricelo na primeira cadeira, a mais próxima do quadro. Maria virou o rosto para vê-lo recebendo um bilhetinho da garota ao seu lado – meus olhos estão me enganando? – conteve uma risada – nosso amigo nerd está trocando mensagens com a Luíza? – Maria carregou o cenho. Os dois viram ele lendo o bilhetinho e sorrindo. Claramente ansioso ele escreveu uma resposta e passou-a de volta para a garota que também parecia feliz – na verdade… – Hian tentou dizer, mas estava incrédulo – na verdade ela nunca se sentou ali…ela é da galera do fundão, não é? – Maria acenou que sim.

– Isso não é coisa boa – Disse preocupada, Hian ficou sem entender – eles estão querendo aprontar alguma pra cima dele, tenho certeza. Essa putinha nunca daria moral pra ele.

– Ah, vai que…

– Vai que…nada. Isso não tá certo – Luíza recebeu a resposta e acenou para Oscar com um joinha, depois pegou seu caderno, levantou-se e foi se sentar no fundão ao lado dos amigos – que coisa esquisita.

– Que bom pro Oscar, tava precisando mesmo de uma garota – Maria virou-se mais uma vez para Hian, tinha a feição deformada de fúria.

– Que bom? Deixa de ser burro, seu melhor amigo tá sendo passado pra trás e você tá achando bom? – dessa vez falou baixo e ninguém ouviu. A professora escrevia no quadro, de modo que não via o corpo de Maria completamente de costas para ela.

– Calma, no intervalo a gente pergunta pra ele, às vezes você tá viajando.

Tocou a sineta para o intervalo. Oscar se aproximou de Hian sorridente e se sentou sobre sua mesa. Maria logo se colocou de pé a fim de vê-lo melhor.

– E então, garotão, o que foram aqueles bilhetinhos? – Hian encostou-se na cadeira.

– Vamos, fala… – Maria disse impaciente. Oscar fez um gesto com as mãos pedindo que eles esperassem por algo, depois apontou para Luíza e sua turma, que se levantavam. Eles saíram um por um da sala de aula, Hian percebeu que Luíza disfarçou um olhar em direção à Oscar um pouco antes de se retirar – Agora pode falar? – Oscar se levantou da mesa e com os punhos cerrados comemorou como se tivesse acabado de ganhar um jogo muito importante. Maria cruzou os braços e ficou a olhá-lo com cara de deboche. Um colega do outro lado da sala se assustou – as pessoas estão olhando, Oscar.

– Não tô nem aí, esse é o dia mais feliz da minha vida – se recompôs, mas ainda estava ofegante – eu sempre soube que um dia todo meu esforço seria recompensado.

– Então fica calmo e conta o que aconteceu – Hian disse.

– Se eu fosse você, não ficaria tão felizinho… – ela se sentou. Oscar puxou uma cadeira e a colocou ao lado da mesa de Hian, de modo que a mesa ficou no centro e entre os três.

– Por quê? – Parecia confuso.

– Maria não vai muito com a cara dela e tem uns preconceitos… – ela tentou protestar -Vamos escutar ele primeiro, né?

– Então… – Oscar limpou a garganta para começar a falar – Nem sei por onde começo. Enfim… – achou uma mancha de tinta na mesa o começou a tirá-la com a unha enquanto falava – Cheguei hoje mais cedo, quero dizer, no horário que sempre chego, mas é que vocês sabem, costumo chegar mais cedo do que todo mundo, gosto de ter certeza que meu lugar vai estar lá e preparar minhas coisas, evitar imprevistos…hoje ela, a Luíza… – sussurrou o nome da garota – foi a segunda a chegar, entrei na sala de aula e ela entrou logo atrás de mim – uma garota passou pela porta, os três a olharam rapidamente – Que susto…achei que era ela – voltou a mexer na mancha de tinta – Como eu ia dizendo, ela chegou logo depois de mim, mas ao invés de ir lá pro fundão, colocou a mochila lá do meu lado. Eu até achei engraçado, porque pensei que ela queria mudar de vida e começar a estudar, mas… – soltou uma gargalhada – não era nada disso.

– Era por causa de você? – Hian perguntou empolgado.

– Mais ou menos – Maria cruzou os braços e virou os olhos – ela me disse que precisava conversar uma coisa, estava vermelhinha de vergonha e eu também fiquei super sem graça, nunca imaginei uma garota como a Luíza querendo conversar qualquer coisa comigo. É a Luíza, você me entende, não é? – perguntou a Hian.

– Nossa, sim

– Sim? Entende o quê? – Maria perguntou enfurecida.

– En-ten-do que-e…

– Parem com isso, deixa eu terminar de contar antes que o intervalo acabe.

– Isso, pode terminar de contar – disse Hian apontando para Oscar. Maria não disse nada, mas o encarou ameaçadoramente por mais alguns segundos antes de voltar sua atenção à Oscar.

– Eu só acenei e esperei ela falar, cara. Pra falar a verdade eu nem sabia o que fazer, era uma situação meio que surreal, entende? Ela pediu pra eu não achar estranho o que ela ia dizer e me fez prometer que eu não iria contar a ninguém – continuou a falar aos sussurros fazendo com que os dois se inclinassem sobre a mesa em sua direção – daí ela me disse que estava de recuperação e que a prova dela é hoje à tarde e que quer que eu faça a prova pra ela num esquema muito louco que ela inventou. Eu avaliei o esquema e parece que pode dar certo.

– Como? – Maria perguntou.

– Ela vai levar uma folha em branco pra prova e vai se sentar ao lado da janela, daí ela me passa a prova pela janela enquanto fica disfarçando que tem alguma coisa na mesa com essa folha em branco e eu do outro lado faço a prova. Depois a gente troca de novo…sucesso – Hian aprovou – uma boa ideia, não é?

– E eu consigo até imaginar o que ela vai te dar em troca…o motivo de você estar tão feliz.

– Ela não me disse com todas as letras e não tive coragem de perguntar, mas disse que eu poderia pedir qualquer coisa e falou ainda que se desse certo, hoje mesmo a gente poderia se encontrar, sair pra algum lugar e que ela pagaria por tudo. Hoje mesmo, cara.

– Se você quer alguma coisa e nós sabemos que quer… – Hian abriu um sorriso, Maria mostrava-se aborrecida – deveria falar antes de fazer o esquema, se for depois ela pode negar, daí você não tem mais nada pra negociar.

– É, pensei sobre isso, mas é que fiquei com vergonha e se ela nem tivesse essa possibilidade em mente?

– Ela foi enfática no ‘qualquer coisa’? – Hian perguntou

– Sim, bas-tan-te.

– Então é isso, cara, se não disser nada pode perder uma oportunidade in-crí-vel – Maria franziu o cenho e encarou Hian com ódio no olhar.

– Ela tem essa possibilidade em mente sim. Esperava que você pedisse por isso, acha que aqueles peitões conquistam tudo, mas também não vai cumprir porque ela não presta e nunca vai querer ser vista com você, mas são vocês que não deveriam querer serem vistos com ela – Maria disse irritada – Sério, vocês dois são ridículos. Isso é muito errado e você, Oscar, só vai se ferrar se envolvendo com essa putinha – virou-se assim que terminou.

– Se ela já imaginava que eu poderia pedir isso, acho que vou falar… – disse Oscar ignorando a raiva de Maria. A sineta tocou, Luíza voltou para dentro da sala de aula e Oscar sentou-se na frente, onde era seu lugar. Maria continuou mal-humorada e Hian sabia que o melhor a fazer era esperar.

III

Hian e Maria saíram do colégio um pouco depois do meio dia. Iam juntos até a casa do Padre, que ficava nos fundos da igreja, para almoçarem. Maria ainda estava com a cara fechada, respondia a todas as perguntas de Hian de forma curta e grossa. Enquanto andavam, ele tentou abraçá-la, mas ela se esquivou, então ele tirou um cigarro da mochila e acendeu-o. De imediato recebeu um olhar desaprovador.

– Ainda lembra do que eu te disse, não é? – Afastou-se dois passos dele.

– Eu ainda não tossi – disse com malícia – ei, por que está assim desde o negócio do Oscar? – não recebeu resposta – Maria?

– Sim? – fez-se de desentendida.

– Perguntei por que está assim, com essa carranca.

– Sabe, eu acho que você queria estar no lugar do Oscar, ficou tão empolgado com a oportunidade incrível que ele está tendo – disse andando, Hian só conseguia ver a parte de trás da sua cabeça, os cabelos ondulados e castanhos um pouco abaixo dos ombros chacoalhanto ao ritmo dos seus passos.

– Ah, eu sabia que você tinha ficado com ciúmes – ela se virou rapidamente, mirou-lhe profudamente nos olhos e voltou a andar – O quê? – Hian perguntou assustado – não era ciúmes? Era o que então? Maria? – ela não disse mais nada. Hian terminou o cigarro, apagou-o na rua e entrou pela lateral da igreja. Ele viu que Maria havia deixado sua mochila no pé da escada e entrado rumo à casa do padre, portanto teve que subir sozinho até o quarto para deixar as mochilas.

Estava aflito, brigara com o padre no dia anterior e desde então não o vira. Havia matado aula e depois encontrado Oscar na saída do colégio. Ficaram o dia todo na rua jogando conversa fora e fumando alguns cigarros. No final do dia ele comeu um sanduíche e esperou até um pouco depois da meia noite para ir até Maria. O padre não era o tipo de pessoa que guardava rancor, o mesmo não podia ser dito de Hian. Estava com raiva e ainda que não quisesse continuar a briga,  sentia medo das reações que poderia vir a ter.

Assim desceu receoso as escadas do seu quarto, atravessou o salão da igreja até os fundos, abriu uma porta dupla, se deparou com o jardim do padre Paulo e atravessou-o entrando na casa já pela porta da cozinha. O padre e Maria estavam sentados, conversavam sobre o macarrão ao molho bolonhesa disposto no centro da mesa. Hian pegou um prato, serviu-se e sentou-se ao lado de Maria, que fingiu nem notar sua presença. Padre Paulo mirava-o desde a hora que entrou até o momento em que se sentou, Hian notou e imaginou que talvez ele esperasse uma saudação, mesmo assim não fez. Como se desistisse, o Padre se serviu e convidou Maria para que fizesse o mesmo.

– Você não voltou pra casa ontem? – perguntou o Padre já com o prato cheio. Era um homem pequeno, pálido e miúdo, de modo que se não fosse a calvície pareceria o mais jovem daquela mesa.

– Cheguei quando você já dormia – disse enquanto mastigava.

– Vocês acham que eu não sei o que fazem? – padre Paulo olhou tanto para Maria, quanto para Hian. Olhava de baixo para cima, quase como uma animal ou alguém querendo olhar por cima dos óculos – Eu já repeti milhões de vezes que não tenho pretensão de ser o seu pai, Hian, e muito menos o seu, Maria, mas preciso alertá-los que isso é perigoso. Eu conheço muito bem o seu pai, Maria, o senhor José é um homem rígido nos seus costumes e ainda por cima não gosta dele – apontou para Hian – se descobrir… – levantou as sobrancelhas – vou ter que transformar outra sala dessa igreja num quarto pra você – Maria segurou uma risada, já o padre soltou uma sonora gargalhada – para com isso, viu – disse a Hian dando-lhe um tapa na mão – Por que está com essa cara, meu jovem? Entrou e não me cumprimentou, agora está com a cara amarrada, o que aconteceu? Vocês dois brigaram?

– Eu e você brigamos, não se lembra? – Hian disse tentando colocar uma feição de espanto no rosto. Sabia que o padre não queria levar isso adiante, mas ele sentia que a discussão ainda não estava acabada.

– Ah não, Hian – o padre Paulo disse esfregando os olhos – vai começar com esse assunto de novo? Você não conhece o homem, para de ser tão arrogante, por favor.

– Eu escutei a conversa inteira, não preciso conhecer o homem pra saber o que aconteceu.

– Você acha que chegou uma pessoa doente aqui e eu poderia ter aconselhado ela melhor, falando… – levantou os pequenos braços, olhou para o teto imaginando uma cena e começou a gesticular como numa peça de teatro – ‘olha, senhor não sei das quantas, a igreja não pode resolver o seu problema, o senhor precisa é de um médico’, é isso que você queria? – Hian ficou em silêncio – Você acha que ele não sabe o que um médico faz? – perguntou ironicamente – aquele senhor, meu jovem, está em estágio terminal, os médicos desistiram dele, por isso ele estava aqui dentro e a última coisa que ele precisava ouvir era você, que vive aqui dentro, que é pra todo mundo… – meneou a cabeça – como meu filho, dizer a ele que só a medicina poderia curá-lo, que Deus nunca poderia fazer uma coisa dessas. Qual esperança restou a esse homem? – Hian arregalou os olhos, as mãos começaram a tremer e o estômago fechou.

– Por que não me disse isso antes? – Maria colocou a mão sobre seu antebraço.

– Eu não preciso te dizer essas coisas, é você quem precisa confiar em mim – o padre voltou a comer, Maria fez o mesmo. Hian ficou estático encarando o macarrão. Sentia-se profundamente irritado, porém não sabia exatamente o porquê. Talvez só estivesse com raiva de ter feito papel de idiota, perdido a discussão ou incrivelmente tocado pela história do homem, a injustiça da vida, o absurdo que era não existir mais esperança para ele.

– Não dá pra confiar em você – disse dando vazão à raiva inexplicável que sentia. O padre não entendeu – não dá pra confiar num homem que mantém uma porta super esquisita trancada por nem sei quantos anos aqui dentro e ainda se recusa a falar o que tem lá dentro – o padre suspirou e afastou-se da mesa, de um jeito que pudesse respirar melhor – o que tem lá dentro, hein?

– Eu já te expliquei, essa igreja é muito antiga e guarda alguns segredos que não posso revelar, não tenho permissão, você precisa aceitar isso – disse com a voz serena.

– E a minha mãe? Ela trabalhava pra você, há onze anos ela sumiu do dia pra noite sem deixar pista nenhuma. Não se despediu e você não sabe de nada sobre o assunto. Quando eu era criança, não pensava muito sobre isso, mas agora sim… e você não concorda comigo que isso é muito suspeito? – o padre encarou o chão desistindo de argumentar.

– Você está sendo injusto – disse Maria tocando-o mais uma vez no braço, Hian se colocou de pé num pulo.

– Não estou sendo nada injusto, tudo isso é muito suspeito – ele apontou para o padre Paulo – sempre que eu falo sobre minha mãe, ele fica calado – falava agora com ódio na voz, resgatando toda a frustração da infância quando perguntava pela mãe ao padre e não conseguia nada – Todas as vezes, nunca me disse nada, só me deu uma foto, só isso. Um dia ela desapareceu e você não sabe de nada? Quer que eu acredite nisso? Olha pra mim! – gritou ao padre que ainda encarava o chão.

– Hian! – Maria gritou e se colocou de pé – o que está acontecendo com você? – Hian olhou-a como se tivesse despertado de um estado sobrenatural de consciência onde estivera por uma fração de segundo. Ficou  parado olhando Maria e depois o padre.

– E-eu, me desculpa – disse ao padre, que levantou a cabeça para mirá-lo – eu não acho que você tenha feito alguma coisa com minha mãe, mas tenho certeza que sabe de alguma coisa e não quer me contar e isso me deixa furioso – disse ainda claramente irritado, mas novamente com controle das suas emoções.

– Eu entendo sua raiva, ficar aqui sozinho…sem saber o que aconteceu, eu entendo, meu jovem – disse com um sorriso.

– Você jura que não sabe de nada?

– Padres não juram, Hian – disse e arrastou a cadeira mais uma vez para perto da mesa. Maria percebeu que os ânimos estavam mais calmos e sentou-se. Hian olhou o prato, balançou a cabeça e saiu dali, foi em direção ao seu quarto. Maria tentou impedi-lo, mas o padre acenou dizendo que era melhor deixá-lo sozinho um pouco.

Hian fechou-se em seu quarto e deitou de bruço sobre a cama. Ficou assim por um quarto de hora, até que escutou sua porta se abrindo. Virou-se para ver Maria se aproximando com um sorriso constrangido. Ela se deitou sobre ele e deu-lhe um beijo molhado na bochecha. Sua boca estava cheirando à molho de tomate. Hian ficou calado e manteve a cara amarrada. Estava triste por ter sido estúpido, não ter controlado suas emoções e entrado em outra discussão sem sentido com o padre.

– Eu nem deveria estar falando com você… – Maria disse se jogando de costas na cama ao lado de Hian – Que história foi aquela de oportunidade incrível? – Hian bateu com a palma da mão na testa e ameaçou colocar-se de bruço de novo, mas foi segurado por Maria – Tá bom, tá bom, vou te dar um desconto porque brigou com o padre.

– Eu não sei o que deu em mim…

– Acho que te conheço melhor que você mesmo – disse tirando delicadamente uma mecha de cabelo dele da frente dos olhos.

– Por quê? – ficou curioso. – Você ficou nervoso porque sentiu culpa. Na hora não soube lidar muito bem com isso, daí virou o foguetinho – Maria sorriu e se aninhou no peito de Hian – você é muito bom, meu amor, por isso se sentiu tão culpado de talvez ter machucado aquele homem – Hian escutou Maria e sentiu que ela estava certa, a irritação deu lugar ao remorso de ter feito o que fez – mas não precisa ficar assim, é muito difícil abalar a fé de uma pessoa, então ele provavelmente nem te deu ouvidos – os olhos de Hian encheram-se de lágrimas. Determinado a não se entregar, cobriu o rosto com o braço e disse que precisava dormir. Maria já estava sonolenta, fechou os olhos e logo adormeceu. Mas Hian ficou acordado, pensando sobre como era um absurdo as escolhas da vida diante da morte.